por Bernardo Brum

A família, como um dos principais pilares da sociedade moldada às luzes do ideal do american way of life, sempre foi, justamente por essa razão, um dos alvos preferidos dos artistas com postura crítica explícita. Exemplos não faltam, principalmente recentes, como Felicidade de Todd Solondz e Beleza Americana, de Sam Mendes. Nos anos sessenta, frente a uma contracultura prestes a explodir na cara dos moralistas, o sempre polêmico Robert Aldrich cravou um filme definitivo em sua explanação sobre quanto um relacionamento baseado em laços de sangue pode tornar-se doentio. Com Bette Davis e Joan Crawford, um dos mais brutos e ríspidos diretores americanos ergueu O Que Terá Acontecido a Baby Jane? , obra – tanto na frente quanto por trás das câmeras – regada por uma disputa de egos enlouquecida. A desconfiança e desgosto mútuo entre as atrizes, nesse caso em específico, levou a obra a um patamar acima; difícil imaginar que um filme tão visceral e intenso teria o mesmo clima tão hostil e ameaçador se fosse feito de forma pacifica e descomplicada.

Porque, para variar, o que Aldrich arquitetou com sua estética preto-e-branca sombria foi nitroglicerina pura, pronto para explodir a qualquer momento. Em poucos minutos, ensina didaticamente como destruir um personagem logo de primeira: após planos gerais de descrição que mostram a graciosa e criança-prodígio Baby Jane Hudson e a sua irmã invejosa Blanche e alguns anos após, a inversão, com a irmã invejosa como atriz talentosa e a ex-prodígio ofuscada, logo temos um acidente à base de closes e planos detalhe onde não se sabe quem acertou quem, mas não importa, a arena está armada: durante o resto do filme veremos um embate entre a aleijada e assustada Blanche e a caricata, perigosa e aparentemente esquizofrênica Baby Jane.  Uma, achando que foi esquecida pelo mundo graças a vigília opressora da irmã psicótica. A outra, presa a um passado de criança famosa, realmente esquecida pelo show business, que aproveita para descontar seu triste destino em sua irmã inválida, em uma das vinganças mais longas, cruéis e bizarras já vistas no século passado.

O impacto é certeiro – ainda que hoje muita coisa pareça já um pouco ultrapassada (como os animais mortos no lugar da comida) e apenas provocativa, o filme funciona de forma massacrante em seu conceito. Não é inverdade nenhuma dizer que, quase cinquenta anos depois, o filme figura como uma das maiores torturas psicológicas já promovidas na velha Hollywood.

E Aldrich é, sobretudo, econômico: o filme se passa, praticamente, em apenas um cenário, e faz desse minimalismo um virtuosismo, ao trabalhar de forma assustadora cada canto da casa. A residência das irmãs é um lugar maldito, escuro e nem um pouco convidativo, onde os poucos focos de luz trazem à tona seres abissais de personalidade doentia, capazes das piores coisas – arriscado a afirmação, mas vá lá: a sua aura maldita chega a rivalizar com outra famigerada moradia, o Motel Bates. Determinada cena, onde uma disforme Bette Davis canta a música que a levou ao sucesso quando era criança, é particularmente irreal, quase inacreditável, um recorte de pesadelo, onde somos obrigados a esquecer que houve uma vez alguma “Jane Hudson”; há apenas Baby Jane, velha, gorda, cruel, maluca e bêbada e sem ciência alguma disso tudo: sua mente calculista e afiada feito uma faca nunca revela a si mesma a realidade, de que não tem mais identidade: é apenas a eterna criança-prodígio que cresceu e continuou sendo, para sempre, a criança-prodígio. Não há mais identidade, apenas uma distorção.

Uma das revelações finais, inclusive, despe o filme de qualquer maniqueísmo; ninguém come o pão que o diabo amassou por ser um pobre e inocente coitado; na verdade, o que acontecia era uma aniquiliação mútua, na frente dos nossos olhos, onde tínhamos o pálido reflexo, mas nunca uma certeza total. O filme acaba assim como suas protagonistas, definhando e entregues à insanidade.

O Que Terá Acontecido a Baby Jane?, poucos anos depois, teria uma espécie de obra-irmã de menor reputação, Com a Maldade na Alma, onde Robert Aldrich retomaria, de forma igualmente elaborada e sinistra, a história de mentes problemáticas consumidas por traumas e culpas.  Mas se a obra-irmã mais nova não deve em nada em termos de narrativa, o tempo e o contexto a traem, porque, então, o estrago que as irmãs Hudson provocaram, com a sua história proibida e esquecida de inveja, já estava feito: poucos anos depois, ficou comprovado que filmes como esse, com sua abordagem diferenciada e abertamente crítica, abriram as alas para uma nova ordem no principal mecanismo de contar histórias da nação mais poderosa do mundo; e fizeram isso, simplesmente, mostrando o outro lado da moeda.

4/5

Ficha técnica: O Que Terá Acontecido a Baby Jane? (What Ever Happened To Baby Jane?) – 1962, EUA. Dir.: Robert Aldrich. Elenco: Joan Crawford, Wesley Addy, Victor Buono, Bette Davis, Julie Allred, Anne Barton