por Bernardo Brum

Robert Ford. Segundo a lápide, “o homem que atirou em Jesse James”. Um homem medíocre que, após fazer a única coisa digna de nota da sua vida – matar um dos mais terríveis ladrões do Oeste, uma figura que ao mesmo tempo despertava repulsa e  fascínio – foi rejeitado, em todos os lugares, da alta sociedade às camadas miseráveis do contexto aonde vivia, como o pior dos traidores, aquele no qual um homem de certa forma notável depositou sua confiança e acabou levando uma bala. Pelas costas. Ao invés da glória de um benfeitor, Robert Ford passou o resto da sua curta vida entre má fama e anonimato, até conhecer a morte pelas mãos de Ed O’Kelley, que mais tarde acabaria sendo perdoado pelo assassinato do algoz do infame fora da lei..

Portanto, Robert Ford, ao longo das décadas, acabou por vezes sendo mais assunto de interesse artístico que o próprio Jesse James. Acabando por tornar-se uma figura à lá “Robin Hood do Velho Oeste”, James seria explorado por essa faceta em inúmeros filmes e canções, inclusive uma clássica canção folk que, além de descrever seus feitos e sua vida familiar, também taxava Bob como um “pequeno e sujo covarde” e perguntava como ele se sentia por “comer da comida de Jesse e dormir na cama de Jesse” para logo depois enfiar um balaço na parte de trás da cabeça da lendária figura. Ford acabaria sendo considerado um autêntico marginal, na mais pura acepção da palavra: à margem da sociedade, um homem em quem ninguém poderia confiar, que não faria mais parte nem da elite, nem do “povão”, nem dos foras-da-lei. Um autêntico pária. E uma figura que parecia ter sido feito sob encomenda de tão ideal que era para Samuel Fuller, rei dos cineastas americanos malditos (engulam essa, Russ Meyer e John Waters!) pegar para protagonista de seu primeiro filme, Matei Jesse James.

Desde o primeiro momento, é notório como Fuller se distancia de qualquer julgamento por parte da direção e filma a história exatamente como imaginava que seja: um conto sobre traição de caráter ambíguo, onde, afinal de contas, nunca saberemos a quem dar razão. Seria assim em filmes posteriores, como Anjo do Mal e O Beijo Amargo, e é assim desde o primeiro minuto da sua filmografia.

Matei Jesse James é um faroeste que bem poderia ser um noir, não pelos elementos dramatúrgicos, mais pelo clima geral de derrota: o negrume de sentimentos vindos do protagonista (que mal ou bem, nós criamos uma cumplicidade com ele – desde o título na primeira pessoa do singular, afinal), o fato de se passarem muitas das cenas mais determinantes à noite (o que já complementava o que Fuller disse uma vez: a câmera deveria destacar a ação como o negrito destaca um texto) e o abandono sofrido por Bob Ford por todos à sua volta, inclusive da mulher amada ilustram, cerca de apenas dez anos depois de John Ford consagrar o western em Nos Tempos das Diligências, que o velho oeste poderia sediar muito além de contos sobre conquista e triunfo; poderia ser, pois, um lugar palco de homens e mulheres amargurados, desesperados e muitas vezes corruptos, protagonizando histórias de traição, abandono e moral duvidosa, onde nada é o que parece ser e todos tem seus podres. Antecipando em uma década a revisão do estilo que o próprio John Ford e outros cineastas como Sergio Leone e Sam Peckinpah iriam propôr com mais impacto.

Como todo début, Matei Jesse James ainda é o diretor em estágio embrionário; as marcas de estilo que fariam do cineasta famoso pelos westerns estranhos, noirs atípicos e filmes de guerra de ponta-cabeça ainda estavam tímidas aqui.  Se desenvolveriam rápido, é verdade – Capacete de Aço, de dois anos depois, não me deixa mentir. Mas aqui sutis problemas de desenvolvimento (ou, em linguagem mais direta, cenas que poderiam ter sido cortadas da montagem final por simplesmente não acrescentarem muita a coisa) impedem a história de ter um impacto mais profundo para gerações posteriores. Nada que atrapalhe, porém, os méritos do filme pela ousadia de ir contra a maré de um gênero ainda em plena década de quarenta; por não apresentar nenhum benfeitor e sim, personagens com pontos de vista diferentes sob a mesma situação. Só por isso, Matei Jesse James já merece a fama que tem – além de, é claro, ser o alvorecer de um dos maiores e mais renegados cineastas da terra do Tio Sam.

3/5

Ficha técnica: Matei Jesse James (I Shot Jesse James) – 1949, EUA. Dir.: Samuel Fuller. Elenco: J. Edward Bromberg, Preston Foster, John Ireland, Barbara Britton, Reed Hadley, Victor Kilian

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