– por Guilherme Bakunin

Olha, Bazin sabe que eu sou um dos primeiros a se levantar pra falar bem de Hitchcock. Não sou o primeiro, acho o diretor inglês demais pro meu top3, mas eu o amo. Ele sabe como ninguém montar um filme. Contudo, eu tenho a teoria de que por ser tão perfeito, Hitchcock as vezes falhas por não se deixar errar, vai ver por isso Frenesi é tão bom, porque apesar de ser inglês, não parece. Parece, antes, alguma coisa saída da garganta de um guitarrista de uma banda de hard rock qualquer. De Frenesi para Intriga Internacional são mais de dez anos. Aqui, o filme ainda é plenamente quadradão e não poderia deixar de ser, pois Hitchcock não investe em qualquer vanguardismo, mas utiliza das conquistas que ele mesmo recebeu nos últimos anos (estamos em 1959).

Não é pra menos que ao garimparmos pelo google encontramos pouco material pra Intriga Internacional. E quando encontramos, as pessoas geralmente rasgam elogios ao Hitch e dizem “bom suspense, boa ação”. Ora, boa ação está nos filmes do Rambo, o que não é ruim, diz meu testículo esquerdo. Mas porra, Alfred Hitchcock possui seus próprios parâmetros e resguarda suas próprias expectativas. Nem mesmo o velho comenta muito sobre esse filme, a despeito da melhor cena e mais uma que ele fez o favor de registrar pra sempre no cinema. Vocês sabem de qual eu to falando, da cena do deserto, incrível, exótica, terrivelmente apreensiva. Não existe ninguém no mundo que faria uma cena como aquela. Absolutamente ninguém. E isso deve ser reconhecido. Por outro lado, existem dezenas de diretores, diretores gente boa, não muito pretensiosos mas que sacrificam a arte da linguagem cinematográfica em prol de algo tão plebeu quando diversão, que fariam deste um filme mais agradável. Porque é justamente por ser tão pretencioso que Intriga Internacional rui.

A ideia por trás da história é interessante, a questão de nós e Cary Grant nos inserirmos no meio da história sem termos absoluta ideia do que está acontecendo também. A execução? Paia. O tom de comédia, intencional ou não intencionalmente não funciona, e simplesmente não é o apropriado. Cary Grant foi mal dirigido então alguém por favor chama o Hawks urgentemente. Ele dirigindo bêbado é vergonhoso, não só pela forma como decidiu executar aquela ação mas pela forma pragmática como o Hitchcock filmou, corte sobre corte, close-ups e fundo de retroprojeção. Gordo, vai pras ruas, pelo amor de Deus.

Os lados positivos de Intriga Internacional me parecem ser o mcguffin da Guerra Fria (se bem que existem uma imensidão de filmes que falam sobre essa guerra de 1950 a 1989);  o dedo de Hitchcock é afiadíssimo pra direção, não podemos negar. Não existe outro diretor que  executaria a cena no deserto. Um excerto que não leva o filme pra frente na história, mas é um espetáculo sensitivo pelo trabalho do espaço e das formas (percebam como a desolação do deserto só aumenta a tensão na cena, não deixando Grant opção de escapatória nenhuma diante de um avião assassino); a história tem o seu lado bacana, apesar de ser enfadonha. Um homem comum, herói máximo hitchcockiano é jogado para dentro de algo tão maior do que ele poderia imaginar. Aquela coisa de perseguição dentro de trens e taxis, aquela outra coisa de fugir através do monte Rushmore são questões inverossímeis criadas apenas para a apreciação no cinema. Ninguém liga se qualquer uma das cenas é verdade ou não. Mas a adrenalina de quando Grant é injustamente acusado de assassinato enquanto o FBI diz que nada poderá ser feito para salvá-lo, ou a vertigem  no monte são um espetáculo para o corpo do espectador, um grande prazer que Hitch nos fornece em plena uma atividade estática, passiva, como é o cinema.

No balanço final, eu fico com quem considera o filme superestimado. Meio sem tempero e com Cary Grant sendo meio irritante. O lance de dividir um vilão em três é uma jogada inteligente, mas eu não saberia elogiar muito mais além disso. Talvez na década de setenta Hitchcock trabalharia melhor com o material, talvez não. Não considero, portanto, um filme indispensável dentro da vasta filmografia do velho, e acho apenas médio. Certamente o Hitchcock é um dos diretores mais corretos pra se trabalhar em qualquer tipo de filme; certamente ele tem mais de vinte filmes ruins. Mais certo que isso, contudo, é que existem mais ou menos dez obras espalhadas por entre  as décadas que, com a escusa da opinião, sem inquestionavelmente engenhosas, geniais. Quem faz Um Corpo Que Cai ou Janela Indiscreta tem a licença do cine cafe pra não ser perfeito sempre.

2/5

Ficha técnica: Intriga Internacional (North by Northwest) – EUA, 1959. Dir.: Alfred Hitchcock. Elenco: Cary Grant, Eva Marie Saint, James Mason, Jessia Royce Landis, Leo G. Carrol, Josephina Hutchinson, Philip Ober, Martin Landau, Adam Williams, Edward Platt, Robert Ellenstein, Edward Binns.

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