– por Felipe Silva

Cinebiografias sempre foram uma faca de dois gumes na indústria do cinema. Com sucessos lucrativos contrapostos a fracassos retumbantes, o gênero implica um alto risco a quem investe nele. Talvez o maior atrativo para os produtores seja a chance de ganharem um Oscar, já que a academia tem um histórico de premiações envolvendo filmes sobre grandes personalidades. As recriações da vida de Gandhi e Johnny Cash são exemplos claros de que, para bem ou mal, quanto mais sofredor for o homenageado, mais longe o projeto pode chegar. E esse é um dos problemas de Amélia, filme sobre a trajetória da pioneira na aviação feminina nos EUA, Amelia Earhart.

Não que a vida de Earhart não tenha lá sua dose de drama. Sozinha no mundo da aviação para mulheres, ela construiu aos poucos o respeito e confiança que os pilotos femininos precisavam para se firmarem nesse esporte, que tempos depois viraria negócio; e ainda lidou com um casamento e um caso extraconjugal. Porém, o roteiro de Ron Bass e Anna Phelan transforma tudo isso numa sucessão interminável de dilemas e conflitos que parecem ter saído de uma novela de Manoel Carlos. Todos os fracassos de Amélia são mostrados com  a maior velocidade possível, e em duas cenas já estão todos de volta à batalha  como se nada tivesse acontecido. A quantidade de frases feitas e situações fabricadas, com direito a um momento “africanos flagelados”, deixa o espectador mais atento sentindo vergonha de um personagem que deveria ser admirável. A participação ridícula de Ewan McGregor é difícil de engolir. O ator parece ter entrado ali apenas por estar em alta novamente em Hollywood. E é uma pena que seja assim, já que ele interpreta Gene Vidal, o homem com quem Amelia trai seu marido. As cenas dos dois juntos lembram um chá inglês cheio de cautela, dada a falta de química do casal. Ewan entra e sai de cena pateticamente, piorando algo que já não ia bem das pernas.

É notável, porém, o esforço enorme de Hillary Swank para contornar com sua atuação segura, a tragédia feita no texto. Premiada duas vezes com o Oscar de atriz,  Hillary é uma escolha sempre interessante, mesmo em filmes ruins. Como não tem a beleza das musas de Hollywood, toda a atenção dos diretores se volta para seu talento dramático, que já conseguiu salvar diversos projetos. O que não acontece nesse caso, já que mesmo com toda a crença na idéia (ela foi produtora executiva do filme), todos os outros fatores não colaboraram. Talvez o maior culpado em toda essa teia de problemas seja a direção da indiana Mira Nair. Aclamada por filmes como Casamento à Indiana e Salaam Bombay, e por alguns trabalhos notáveis para TV, Nair se mostrava competente, trazendo um mundo indiano mais realista para as telas ocidentais. Porém, após a tragédia que foi o seu Feira das Vaidades, uma dúvida passou a rondar a carreira da diretora, sendo confirmada agora, da pior maneira possível. Nair gasta tanto tempo do longa criando ambientes novelescos e sendo cuidadosa com a reconstituição de época, que o único momento aonde o ritmo vai se tornar realmente interessante é no final, carregado de tensão. Mas nesse final, que dura por volta de 10 minutos, quase nenhuma palavra é dita; já era de se esperar.

1/5

Ficha técnica: Amélia – 2009, EUA. Dir.: Mira Nair. Elenco: Hilary Swank, Richard Gere, Ewan McGregor, Christopher Eccleston, Joe Anderson, Mia Wasikowska

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