– por Guilherme Bakunin

A Dreamworks deu outra chance a Woody Allen e, ciente da responsabilidade (financiamento farto de uma grande companhia), ele resolve não inventar. Uma história de amor bem moderna, neurótica, pois ainda é um filme de Woody, mas com uma narrativa e personagens muito mais estáveis que o usual. Perceba que não existem grandes ambições em Igual a Tudo Na Vida; desde mais ou menos Desconstruindo Harry, em 1997, seus filmes aspiravam grandes homenagens a filmes do passado ou possuiam certos acontecimentos bem notórios. Basicamente, coisas que o afastavam ainda mais de uma história realista. Sem realismo, a identificação da platéia com o trabalho torna-se menos possível, e foi mais ou menos exatamente isso que aconteceu durante cerca de seis anos. Até que em 2003 Woody retorna com esse trabalho, que é realista. Jason Biggs interpreta um comediante judeu cuja namorada é a neurótica Amanda, garota cheia de crises, viciada em drogas e com sérios problemas maternais; Biggs, enquanto isso, vive de receber conselhos de um velho paranóico que diz coisas como “os judeus causaram todas as guerras” e etc. Não é muito identificável, é verdade. Não há um grande apelo de se chegar à alma do público. Mas é mais foot on ground do que os seus trabalhos nos últimos, sei lá, onze anos.

Através das desventuras Jerry Falk nos é permitida diversão, entrenimento de boa qualidade, desafiador. A história não é linear e segue o rumo das conversas do protagonista; é através da voz que o filme se desenvolve. Veja o filme sem som e se surpreenda com a completa falta de sentido. Você verá personagens alheios ao mundo, outros conversando consigo mesmo, outros conversando com a câmera. A questão em cheque é que Igual a Tudo na Vida reflete a mesma necessidade indispensável que nós temos de falar, de conversar, de experimentar. Porque ninguém quer acreditar, mas esse é um pequeno experimento de Woody Allen. Um filme sem história e praticamente sem personagens;  louco, desconexo, vazio? Bom, igual a tudo na vida. Em que outro filme da dreamworks e poxa, em que outro filme de hollywood nos é permitido pensar nesse tipo de conexão.

Sumariamente, é um bom filme. O texto é maravilhoso. “Porque você tem a impressão que eu não te amo? Só porque me afasto quando você me toca?”. Woody ainda sabe como fazer rir. O problema é, este é um filme menor, menos intenso em todos os aspectos; no final, resta a sabedoria emblemática de um cineasta consciente de seu personagem. Em poucos minutos, o protagonista recebe um tipo prendado de redenção, algo  tão singular como em Celebridades. Lee Simon clama por ajuda; Falk, porém, já recebeu auxílio. Com a ajuda de um conselheiro, tão presente quando, não sei, um espírito, se libertou dos seus tramas e conseguiu deixar Nova York. Dois anos depois, Woody Allen faria o mesmo.

3/5

Ficha Técnica: Igual a Tudo na Vida (Anything Else) – EUA, 2003. Dir.: Woody Allen. Elenco: Woody Allen, jason Biggs, Fisher Stevens, Anthony Arkin, Danny DeVito, Christina Ricci, KaDee Strickland, Jimmy Fallon, Diana Krall, William Hill, Stockard Channing, Maurice Sonnenberg, Kenneth Edelson, David Conrad, Joseph Lyle Taylor.

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