clintotorino

– por Michael Barbosa

Preconceituoso, conservador, de direita, tradicionalista. Há certo estereótipo que rege sobre a figura do americano, especialmente do veterano de guerra, e que talvez venha se esvaecendo nas últimas décadas, e em Gran Torino Clint Eastwood presta sua sutil e sagaz homenagem exatamente a este sujeito, e como faz isso com maestria!

Walt Kowalski acabou de perder a mulher e parece que com isso perdeu também as rédeas, não precisa mais agradar, não precisa mais ir à Igreja, nem ser politizado. Agora é apenas um velho cabeça dura, certo do que o fim da vida lhe guardou, e não parece muito empolgado com isso. Seu bairro foi tomado por “chinas”, “chicanos” e “pretos”, mas como americano convicto que é – o que contrasta com o fato dele ser polaco – ele não abandona o gueto e não abre mão dos seus preceitos. Contudo o que se revela logo é que se existe nesse homem algo maior que seus preconceitos é seu senso de justiça que logo se aflora quando vê três negros atacando sua vizinha hmong (povo oriundo da Ásia oriental como se faz questão de esclarecer no filme). Dalí em diante o que veremos é uma jornada de auto-descobrimento depois dos sessenta e a sobrevida de um velho.

Clint chega ao seu último trabalho tanto atrás quanto a frente das câmeras e demonstra uma maturidade artística e vitalidade que corroboram para o mito do cinema americano e classicista que ele se tornou. Gran Torino se faz grande nas pequenas coisas, no modo como se constrói personagens reais e em que podemos acreditar mesmo com tantos estereótipos e lugares comuns (o que se pararmos pra pensar faz o mais perfeito sentido dentro da proposta de contar a história de um sujeito ordinário e tão anacrônico quanto Walt Kowalski).

Talvez, é bem verdade, a mudança de personalidade e atitudinal de Walt soe rápida e abrupta demais, mas, caramba, às vezes na vida do homem é assim que as coisas acontecem. Acontecimentos se sucedem, conceitos e verdades absolutas mudam como em um piscar de olhos e nos provam que somos a tal “metamorfose ambulante” que disse Raul certa vez. Walt é assim, no fundo um sujeito bom, só que ele mesmo não sabia disso.

E é incrível ver que até naquilo que poderia parecer um defeito à primeira vista, olhando com mais atenção é um acerto. O elenco de coadjuvantes que se não exerce atuações magistrais – ainda que corretas – foi todo composto por legítimos e críveis representantes de suas culturas, são hmongs de verdade que interpretam os hmongs da tela. Com os trejeitos, o sotaque, o jeito de ser e agir. E pode ser que isso valha mais, bem mais, que grandes atuações em um filme tão sensível e honesto como esse.

E ao fim Walt tem a sua redenção definitiva e final. E morre consciente de que morreu por aqueles que lhe salvaram a existência nos acréscimos do segundo tempo, não foi um sacrifício, foi um “Muito Obrigado” ao som da linda canção homônima na voz do próprios Clint. Que artista! E se em Os Imperdoáveis Eastwood resgatou um gênero inteiro e fez o western final, aqui ele é um tanto quanto mais minucioso e específico e nos presenteia com a tragicomédia definitiva sobre toda uma geração de americanos, seus medos, preconceitos, anseios e, sim, suas virtudes.

5/5

Ficha Técnica: Gran Torino (Idem) – EUA, 2008. Dir.: Clint Eastwood. Elenco: Clint Eastwood, Bee Vang, Ahney Her, Christopher Carley.