por Bernardo Brum

Certa feita, John Ford disse que não via muita utilidade no Cinemascope. Segundo ele, tal novo recurso (à época, obviamente) de filmar e projetar só servia mesmo era para filmar cobras ou enterros. Bem, Nicholas Ray teve uma idéia diferente. E a primeira imagem de seu clássico mais famoso é uma sarjeta, onde o jovem Jim Stark – cria do cineasta maldito com o intenso intérprete James Dean – se debate, trôpego, enquanto rolam os créditos.

É como se ele deixasse, de sobreaviso, que apesar de angariar um status de megaclássico da Era de Ouro de Hollywood, esse não era um clássico como os outros. E nunca foi, a bem da verdade. Mais lembrado por ser um dos poucos filmes que James Dean deu o ar do seu talento, e o mais emblemático para toda uma geração que tornaria Dean um ícone pop tão grande quanto Marilyn Monroe ou Mick Jagger, a expressão máxima do “viva rápido e morra jovem”, Juventude Transviada foi um filme fundamental  para o cinema americano na transição entre seu período clássico pré-Kane e a explosão comercial dos autores pós-Easy Rider, junto aos filmes violentos e sujos de Samuel Fuller e os trabalhos de desconstrução e análise de gente como Sydney Pollack e Sidney Lumet.

Se Fuller destruía a América à pancadas, enfocando marginais e apontando dedo na cara de burgueses hipócritas, Lumet despia o americano como médio e o revelava como preconceituoso em Doze Homens e Uma Sentença e Pollack mostra como os anos 30 foram um desespero, não uma festa em A Noite dos Desesperados, a obra mais famosa de Ray enfoca os adolescentes. E ninguém mais. Essas estranhas criaturas perdidas entre a infância e a idade adulta que, em um número percentual cada vez maior ao longo das décadas, envolvem-se em atividades irregulares, ilegais e potencialmente suicidas. É o tipo de personagem que Ray sabia enfocar como ninguém. A sarjeta dos Estados Unidos vinha aos nossos olhos, em Cinemascope.

Com a tela lateralmente comprida, os espaços ganhavam dimensão ainda não vista no cinema – que o diretor fez questão de preencher o olhar agora potencialmente dispersivo com uma avalanche de acontecimentos que saía das lindas casas e acabavam em competições, brigas e fugas desesperadas.

A falta de causa que enlouquecia esses jovens – seja um rostinho bonito como Stark, uma princesinha da américa como Crawford ou um introvetido feito Platão, ou qualquer outro jovem que o filme enfoque – não queria dizer, literalmente, que eles se rebelavam de graça. Mas não tinham uma razão explícita para agir contra o establishment, nem viam como poderiam se livrar disso tudo. Rebeldes sem propósito, que não conseguiam enxergar rumo para suas vidas. Viam como seus pais eram falidos e brigavam o tempo inteiro. Viviam no mundo onde a lei que imperava era “se o trabalho dignifica, trabalhe até morrer”. Nos ricos subúrbios americanos, os sólidos ideais capitalistas não davam espaço para devaneios. Em pouco tempo, seria a vez deles de serem adultos falidos que precisariam manter uma fachada de hipocrisia para não chocar a comunidade, não serem perseguidos por uma caça enlouquecida às bruxas inimigas do americano branco, hetero, anglo-saxão e protestante. A importância de Ray para as gerações subseqüentes, então, faz-se tão forte quanto On The Road, de Jack Kerouac.

Não à toa, um embriagado adolescente – aquela figura que você não quer ouvir, mas Ray fez questão de fazer um tratado definitivo sobre – ao ver seus pais brigando por motivos fúteis, ao ver como sua mãe é dominadora e seu pai é submisso, não vê alternativa a não ser gritar, desesperado: “Vocês estão me destruindo!”. A família capitalista, símbolo do orgulho norte-americano, já dava sinais de desgaste há muito tempo – e a postura de “conforme-se ou caia fora”, sem direito a diálogos, já causavam um sentimento de mal-estar muito antes de diretores como Todd Solondz e Sam Mendes resolverem virar tudo de cabeça para baixo na década de 90, com suas famílias bizarras e desesperadas.

Ma claro, como já dito e o próprio título já indica, aqui os adultos não tem vez: os pais de Stark, Judy e Platão tiveram suas almas “vendidas” ao sistema, e a preocupação de Ray não é com a decadência deles, mas que o mesmo acontecesse com as crianças que sua terra insistia em parir, ainda que o futuro não parecesse dos melhores, à beira de a qualquer momento acabar em uma fogueira nuclear. O cineasta, afeito a injustiças sociais, penalizado com vítimas da violência, adolescentes desamparados, deliqüentes juvenis e foras-da-lei, não deixaria barato. Como seus contemporâneos, também daria o seu sacode na América. E não estava para brincadeiras. O recurso do Scope capturando grandes áreas, demarcando espaços de forma coreografada e a profusão de cores – da jaqueta de Jim às luzes de faróis de carros roubados – elevam Juventude Transviada além de mero exercício de estilo e cria um filme à moda da nova tradição, sem antagonistas, sem grandes combates e com a técnica servindo à abordagem e a abordagem servindo a técnica  para suscitar questionamentos (até hoje, é um dos filmes mais sujos já rodados por um grande estúdio – não por causa do conteúdo das cenas, hoje em dia um tanto inocentes, depois de décadas de adolescentes drogados roubando carros, mas sim pelo tratamento chocante e profundamente dramático conferido) que, passados quarenta e cinco anos, ainda soam atualíssimos.

No fim das contas, um filme que vai muito além do puro choque: é sincero como poucos tem coragem de ser. Onde há desgaste e desconforto, a arte deve intervir. Muito além da mera mensagem, é o recado rebelde sem causa original para todos os outros que combatem toda forma de poder.

5/5

Ficha técnica: Juventude Transviada (Rebel Without a Cause) – EUA, 1955. Dir.: Nicholas Ray. Elenco: Dennis Hopper, Ann Doran, Ian Wolfe, Natalie Wood, James Dean, Sal Mineo, Jim Backus, Corey Allen

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