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– por Michael Barbosa

Irmão e irmã viajam para colocar flores no túmulo do pai, irmão começa a brincar com os medos de infância da irmã, mas como em um piscar de olhos o que era engraçado vira pânico quando um homem os ataca, inutiliza o rapaz e começa a perseguir a moça, que se refugia numa casa junto a outros sobreviventes dessa estranha epidemia de seres bizarros e homicidas. É partindo deste plot simples que George A. Romero resolve criar uma das obras definitivas do cinema de horror, A Noite dos Mortos-Vivos.

Romero pode não ter inventado os filmes de zumbis, mas o que ele fez através de A Noite dos Mortos-Vivos consegue ir além. Ele reinventou, criou diretrizes, deu as cartas. Andar lento e cambaleante, desprovidos de inteligência, comedores de carne humana, “atire na cabeça para matar” e tudo mais que hoje faz parte do imaginário popular quando se ouve a palavra “zumbi” (que curiosamente não é citada em momento algum do filme). Mas tudo isso começou da maneira mais simplória possível. Alguns amigos recém formados, uma produtora recém criada, talento, vontade de fazer cinema e algo em torno de uns 100 mil dólares.

O orçamento curto que poderia se tornar um grande empecilho é transformado num trunfo. Do preto e branco se faz uso das sombras em cada canto aumentando mais e mais a tensão e transforma a maquiagem simples em convincente ainda hoje. E do filme em 35 mm se traz o tom documental. O resto fica pra inteligência e inventividade de Romero, John Russo e toda equipe.

O filme segura a tensão durante todo desenvolvimento da trama que por sinal assume seu lado sci-fi, todavia não dá respostas fáceis. Sugere um acidente radioativo com um satélite vindo de Vênus, no entanto não se confirma a ideia e com isso abre margem para todas as neuroses e paranóias do americano que vivia aquela época tortuosa.

Ademais vale destacar que Romero dá aqui sinais do campo que pretendia se aventurar nos seus próximos filmes, o que já fica bem mais evidente na sequência O Despertar dos Mortos, o estudo social. Mas aqui ainda que de forma mais esboçada e menos consistente isso já se mostra presente na luta pela liderança, no conflito de ideologias, nas reações das pessoas em uma conjuntura tão extrema como essa.

Ah, tem o herói improvável, ele é negro, mais inteligente e mais racional que os outros, tem postura de líder, se mostra estável ainda que nem sempre esteja certo e parece capaz de sobreviver ao fim de tudo. Mas numa jogada arriscada para época Romero dá a sua cartada final, sem dó, sem rodear muito, ele vai e estraçalha a sua esperança, o sonho de redenção e o happy end que pareciam tão próximos – quase que de relance – se transformam em pessimismo. Uma forte pancada. Como conforto você pode finalmente relaxar os ombros, pois a viagem àquele mundo sombrio e aterrorizante acabou e o que fica é a sensação de que você acabou de ver um pedacinho da história.

5/5

Ficha Técnica: A Noite dos Mortos-Vivos (Night of Living Dead) – EUA, 1968. Dir.: George A. Romero. Elenco: Duane Jones, Judith O’Dea, Karl Hardman, Marilyn Eastman, Keith Wayne, Judith Ridley.

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