por Bernardo Brum

Mario Bava, certa feita, disse que todos os seus filmes eram grandes bobagens. É de um humor negro fortíssimo que um homem que delineou tanta coisa enquanto estava em atividade (lançou sementes para o giallo, o slasher e o visual psicodélico/gótico dos filmes do Tim Burton e de determianadas obras de David Lynch como Veludo Azul e Coração Selvagem) e arquitetou a estética de todo o cinema de horror pós-Hammer, tornando-se um dos diretores mais referenciados e copiados do cinema recente, nunca tenha perdido o espírito de brincadeira fantástica que vem desde George Meliés, enquanto muitos que levam cinema muito mais a sério, como arte e coisa tal, produzindo obras mil vezes mais sisudas e ditas vanguardistas, tenham sumido nas areias do tempo…

Levando por esse lado, As Três Máscaras do Terror é outra dessas zoeiras revolucionárias de Mario Bava. E com o delicioso diferencial que aqui a intenção de brincar com cores, sons e expectativas está esfregada na nossa cara desde o início, desde a pomposa e sarcástica introdução feita pelo ícone Boris Karloff até um daqueles finais sacanas que só Bava poderia ter a idéia de filmar (e com toques metalinguísticos – novamente, mais para fazer graça do que para fazer você pensar cada segundo da sua vida – no final das contas, isto é uma piada, não se esqueça).

Nesses três contos que Bava dirige para formar um único filme nota-se quase que imediatamente o talento singular do assim chamado “Maestro do Macabro” para tecer tensão e angústia nas suas mais variadas formas. A primeira instância apresentada por Bava é bem mais “pé no chão” do que as outras: O Telefone seria, então, um dos precursores do giallo – mulheres européias sensuais, tramas bizarras, assassinatos ritualísticos, desfechos mirabolantes. Ao contrário das outras sementes de estilo lançadas pelo diretor em filmes como Olhos Diabólicos e Seis Mulheres Para o Assassino que se desenvolviam em vários lugares, com vários personagens e uma avalanche de acontecimentos enfileirados, Bava torna tudo o mais simples possível: três atores, uma locação e uma trama esperta, cheia de insinuações sexuais que hoje em dia parecem um tanto inocentes a nossos olhos já maliciosos e bastante funcional.

Tido como o segmento mais fraco, é para lá de bem-escrito e desenvolvido, além de criar sequências que mostram como se filma um suspense – como quando o diretor nos obriga a compartilhar com o assassino a sensação de ser um voyeur, invadindo o espaço da bela jovem com nossos olhos intrometidos. E não é que este seria um conceito exaustivamente explorado por Dario Argento em obras como Prelúdio Para Matar?

O Wurdulak é um conto nitidamente feito às luzes da literatura gótica, onde Bava, brincando habilmente com luz e som, cria uma atmosfera onírica de pesadelo que toma o espectador em questão de minutos. Adaptação do diretor de um conto de Tolstói sobre uma criatura vampiresca que bebia o sangue daqueles que mais amou em vida. Este “vampiro doméstico” é interpretado por ninguém menos que Boris Karloff, que mostra a razão de certos atores tornarem-se lendas: assim como Vincent Price, Bela Lugosi e Robert Englund, não é qualquer um que consegue ter uma presença magnética como a do ator. A maneira como ele controla sua postura, seus passos e sua voz tornam o Wurdulak uma criatura ameaçadora e ao mesmo tempo trágica. Quas nos faz esquecer que é um velho ator com maquiagem carregada.

Ancorado pelos jogos de luz de Bava, o conto se torna literalmente aquelas histórias de bicho-papão que nos assustava quando eramos crianças. Bava também não facilita; a cada vítima do vampiro,  o segmento revela uma sequência arrepiante atrás da outra, desde a chegada do personagem de Karloff até o desolador final, passando por sequências de literalmente apertar o coração – como a do menino trancado fora de casa. Uma verdadeira manipulação de expectativas e emoções que só mesmo alguém sacana feito Bava para conceber.

Por fim, A Gota D’água antecipa todo o (bom) terror moderno; um fiapo de história (uma enfermeira rouba a única jóia de uma recém-defunta e esta volta para se vingar) elevado ao mais puro terror sensorial: insetos, torneiras vazando e outras miudezas vão se somando para criar uma atmosférica tétrica. Os jogos de luzes expressionistas de Bava logo deixam tudo claustrofóbico. Até o espírito voltar de vez, nós já sabemos que há algo de errado há bastante tempo. Mais do que nunca, o demônio está com os (planos) detalhes; o italiano consegue impregnar qualquer coisa com uma aura de maldade  se assim desejar. Enfim, o mais visualmente elaborado dos três, onde a estética do terror italiano constrói uma narrativa profundamente rica, ainda que curta.

Ainda que não figure entre os melhores do Bava, sendo muito mais uma diversão tétrica do que qualquer outra coisa – inclusive, mais tarde, o diretor experimentaria elementos de cada segmento de forma mais impactante e definitiva; o que ele experimentou no segmento do Telefone seria mais aprofundado em Banho de Sangue e Seis Mulheres Para o Assassino; já os dois últimos lançariam sementes para O Ciclo do Pavor, Lisa e o Diabo e Shock – certamente não merece ser esquecido. Não apenas por ser fundamental para a carreira do próprio diretor, mas por já antecipar em dez anos tudo o que Argento, Fulci, Martino e afins aprontariam.

“Pronto. Não lhes parece que devia terminar assim? Com os fantasmas não se brinca, porque eles se vingam… Bem, chegamos ao fim de nossas histórias e agora infelizmente devo deixa-los. Mas tomem cuidado quando voltarem para casa. Olhem ao redor, olhem para trás. Cuidado quando abrirem a porta, não entrem no escuro… Sonhem comigo! Nós nos tornaremos amigos!”

–  Boris Karloff

3/5

Ficha técnica: As Três Máscaras do Terror (Black Sabbat/I Tre volti della paura) – França, Itália, Estados Unidos, 1963. Dir.: Mario Bava. Elenco: Boris Karloff, Michèle Mercier, Mark Damon, Lidia Alfonsi, Susy Andersen, Massimo Righi

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