– por Guilherme Bakunin

Que achado! Todos gostamos de falar que não temos preconceitos, que somos seres puros, compreensíveis. Mas é impossível viver sem nenhuma opinião burra, preconcebida. E na carreira do Woody Allen essas opiniões estão com a gente meio desde sempre. Não sei quando comecei a ter a ideia de que o diretor já não era mais o mesmo dos áureos anos setenta/oitenta, mas é algo que estava comigo. Maridos e Esposas, O Misterioso Assassinato em Manhattan, Desconstruindo Harry e Todos Dizem Eu Te Amo estão aí para provar que não houve decaída. Não sei nem se realmente houve alguma coisa com Woody nos anos 90. A verdade é que em termos de criatividade, de emoção, de compromisso com seu trabalho ele está exatamente o mesmo. Todos Dizem Eu Te Amo é um projeto que Woody Allen tinha há bastante tempo para um musical, mas que por falta de tempo, não chegou a realizá-lo antes. Edward Norton interpreta Holden, um sujeito simples mas gentil apaixonado pela personagem de Drew Barrymore, Skylar. Skylar possui três irmãs, uma delas é DJ, narradora do filme. DJ narra a história com uma informalidade cativamente, linguagem fluida, direta, inteligente, divertida. Paralelamente à história dessa rica família envolta num romance nada complicado está Julia Roberts, mulher casada e sufocada por suas fantasias extraconjugais. Como é comum aos filmes pós anos oitenta de Woody, as histórias vão se cruzar sem a menor necessidade de verosimilhança. Os personagens simplesmente se cruzam, se interagem e se afastam, numa trágica exceção a inverossimilhança nos filmes do cineasta.

Um projeto de romance musical já era uma ambição na cabeça de Woody Allen por muitos anos. Por falta de tempo, sempre fora adiado. Em 1996, um grupo estrelar se une para dar vida ao tão esperado filme, não emulando os musicais antigos, não recriando My Fair Lady ou Cantando na Chuva. O grupo está alinhado com a ideia de que este é, acima de qualquer gênero e acima de qualquer assunto, um filme de  Woody Allen. Na primeira cena, você já sabe. Aquela Nova York de ouro, cheia de felicidade, paz e espaços vazios. De repente, Norton, Barrymore e toda Manhattan começa a cantarolar. Nada muito grandioso, nada muito ambicioso (como Woody). Como pessoas normais, de verdade, elas cantam e expressam sentimentos, sem que um coral de bailarinos se junte ao coro. Alguns atores até cantam baixo, como se estivessem com vergonha; outros se perdem na dança. É Woody Allen sendo o menos ambicioso o possível, e criando algo extremamente magnífico com essa humildade severa e verdadeira.

Existe um exemplo cabal da personalidade de Woody Allen, não só como pessoa, mas como artísta nesse filme. Trata-se obviamente da valsa em Paris, uma sequência poética  e irretocável. Quer dizer, você sabe no instante em que a vê que aquilo é algo tremendamente grandioso. Uma valsa ao rio Sena com dois personagens de construção tão forte como os Goldie e Woody. E ela levita, completamente submissa aos movimentos do galã. Completamente dominada. E ele, Woody Allen, com movimentos contidos, sutis, de cabeça e corpo baixos, mãos levantas como  se estivesse num eterno cortejo numa festa de casamento do interior nos anos cinquenta. Um homem que é grande o suficiente para elevar a alturas inimagináveis algo tão corriqueiro e ainda sim tão maravilhoso como uma mulher, mas humano o suficiente para reconher que, na verdade, é ele quem depende dela. É nela que ele deposita todos os seus pensamentos, tempo, distrações. Substitua Goldie Hawn pelos seu (de Woody) cinema e estará traçada a relação mútua de dependência entre esses dois seres.

Eu também não sinto a menor vontade de ir muito longe aqui. É um filme absolutamente maravilhoso, divertido, bem escrito. As imperfeições em relação ao final permanece, como em quase todos os abruptos filmes noventistas do diretor. Mas caramba, o desenvolvimento é muito bom. Cumpre exatamente aquela que é, no final das contas, a única ambição de Woody Allen, assim como de outros grandes monstros do cinema como Wilder, Wellesou Ray: entreter com respeito ao espectador e amor a uma arte tão aliada a uma indústria hostil, o cinema.

5/5

Ficha técnica: Todos Dizem Eu Te Amo (Everybody Says I Love You, 1996. Dir.: Woody Allen. Elenco: Edward Norton, Drew Barrymore, Alan Alda,Gaby Hoffmann, Natalie Portman, Lukas Haas, Goldie Hawn, Julia Roberts, Woody Allen, Tim Roth.

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