– por Cauli Fernandes

A preocupação conosco é mínima: somos os espectadores intrometidos, então o esforço de acompanhar e entender a história é só nosso, pois não existe Dardenne nesse mundo que entregue as coisas facilmente.

No início, a incompreensão vem fácil. Não há nenhuma apresentação clássica de personagens, mas somente uma súbita aparição da imagem, como se tivessem nos posto, de olhos fechados, em frente ao local da ação do personagem e, em dado momento, nos mandado abrir os olhos e prestar absoluta atenção na mãe que surge e no calvário que se segue.

Desse modo, perseguimos Sonia, a mãe, subindo as escadas, mas, mesmo não a conhecendo bem, nos chocamos com o tratamento recebido por ela. Na tentativa de abrir a porta do apartamento que se supõe ser dela, alguém que está do outro lado da porta a fecha, sem que vejamos quem. Depois, um homem a abre e diz que alugaram o apartamento de Bruno; Sonia fica do lado de fora, revoltada. Todas as perguntas que surgem com esse começo são logo respondidas, mas o roteiro não se expõe. Em outro momento, por exemplo, Sonia se encontra com Bruno na margem de um rio e diz que esperou a visita dele; nota-se que o diálogo não se desnuda de qualquer maneira e é preciso um pouco mais de eletricidade no cérebro para entender o que ela diz. Assim, a ilusão de ótica entre realidade e ficção provocada pelo filme é tão grande que temos a impressão de estar vendo um documentário. Tal sensação é agravada pela ininterrupta câmera na mão e ausência de ângulos muito planejados ou arrojados (sempre a lente esta na altura dos olhos dos personagens), como também falta de trilha sonora.

Mas um filme tão poderoso seria incapaz sem personagens fortes e atores do mesmo nível.  Jérémie Renier interpreta um Bruno algumas vezes visto como o vilão da história, mas ele é um ser ingênuo que faz de tudo pelo bem de Sonia, sua namorada. Se ele vende o filho, é pra sobreviver ao lado dela; não é possível julgá-lo por colocar como prioridade o amor que sente por ela e a vida a dois tranquila que almeja. Sim, ele mente para os policiais sobre o que aconteceu e coloca a culpa em Sonia, mas a sua sobrevivência também é necessária. Já Déborah François faz uma mãe apaixonada pelo filho e, assim, possui a antítese do sentimento de Bruno pela cria. Mesmo assim, depois que se percebem na espiral criminosa que em que se meteram, tentam resolver a sua forma, assumindo, em silêncio, a intempérie que é o bebê. Entretanto, depois de tanta mentira e paixão e a confirmação da pobreza em que vivem, eles se unem e choram pois não poderem se amar da forma ideal nesse mundo capitalista. Como, também, por verem que ainda são crianças e que não aprenderam esse jogo maldito que ninguém sabe o nome nem as regras. Mas aí já é tarde demais.

5/5

Ficha técnica: A Criança (L’Enfant) – Bélgica, França, 2005. Dir.: Jean-Pierre e Luc Dardenne. Elenco: Jérémie Renier, Déborah François, Jérémie Segard.

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