– por Guilherme Bakunin

Você não conhece muitas pessoas por aí que falam mal de Desconstruindo Harry. A década de 90 não é o melhor momento de Woody Allen, mas dentro desse contexto, Harry se sobressaí e muito. Seria o filme mais pessoal do cineasta? No começo, logo nos créditos, nós temos a desconstrução. Não os créditos naturais de um Allen’s picture, mas fragmentado, como as memórias de Alvy, Sandy e Harry. A descontrução começa ali, no primeiro minuto, pois tudo é bastante objetivo. Como se a morte estivesse à espreita, e ela sempre está, Woody não perde tempo e escolhe sempre o caminho mais sintético para provar seu ponto. Desconstruindo Harry não é, mas poderia ser o último filme de um dos grandes mestres do cinema.

Harry Block é um escritor de romances que se especializou em transpor parte de sua vida para os livros. Viciado em sexo, misógeno, beberrão, o personagem vive um bloqueio artístico, incapaz de criar qualquer história que valha a pena ser contada. Ora, já percebemos duas coisas aqui. Primeiramente, o personagem se chama Block, bloqueio. Carrega na sua identidade o seu atual estado de espírito. Eu não sei exatamente qual, mas Woody quebrou alguma barreira do cinema aqui. Porque seu filme não narra um momento (ou vários, tanto faz) específico da vida de um personagem. Harry não existiu antes e não existirá depois do filme. Ele é mais que o personagem, é um argumento que o mais neurótico dos diretores cria para mostrar o que se passa dentro de si. Harry não está bloqueado, ele é o próprio bloqueio personificado. É uma entidade sobrenatural que encarna muito do que existe de errado na vida de seu deus (Woody), para tentar e apenas tentar dar redenção a ele (deus). Em segundo lugar, um aspecto interessante da personalidade de Harry é que, sendo um escritor que fala sobre a sua vida, parece improvável que em algum ponto de sua carreira ele não teria nada para escrever. Mas Harry não tem, porque sua vida não tem valido apenas, e artisticamente ele enxerga isso, apesar de suas terrenas limitações fisiológicas (razão?) não terem percebido isso.

A questão é que, tendo nada pra fazer, Harry decide comparecer a sua antiga universidade para ser homenageado por sua carreira. Mais ou menos como em 2002, quando Woody Allen foi ao Oscar por Nova York, Harry decide comparecer à homenagem, mesmo considerando-a imbecil, por seu filho. Antes do filme de tornar um moderno road movie, porém, algumas coisas acontecem. Harry é ameaçado por seu trabalho, ficando frente-a-frente com a dor fumegante que a super exposição de sua vida causa naqueles que estão ao seu rodor; Harry entende que deseja que os outros se adequem a sua duvidosa personalidade viciada em prostitutas, ao invés de procurar superar seus entraves; Harry se desespera ao vislumbrar que seus próximos dias, talvez meses e anos, talvez os últimos, sejam solitários, e tenta voltar loucamente para sua antiga paixão, uma garota duas vezes e meia mais nova que ele. Ela recusa; Harry então, sente-se sobrecarredo de problemas e procura o “doce alívio de uma xoxota” (assinado: Kevin) para se libertar desse jugo; Então vai com seu filho, seu amigo e uma prostituta para ser homenageado.

O filme é interpelado por pequenas histórias escritas por Harry e, pouco a pouco, os personagens mal adaptados do escritor tornam-se ele mesmo, seus amores, amigos, etc. Já ao final, antes que Harry pudesse ser homenageado ele desce ao inferno, história que acabava de ser contada por ele a um dos figurões da universidade. Agora já não há mais necessidade de se camuflar. A arte de Woody é a sua própria vida transposta através de um artifício tecnológico – a saber, a câmera ou dentro do filme, a máquina de escrever. Tudo o que ele cria é uma concepção de seus medos, angústias, questionamentos. É a não compreensão do espírito do homem e de todas as confusões que esse espírito complicado trás para sua vida que faz nascer suas histórias, que são neuroses modernas buscando entender o que se passa. Desde Boris Gruschenko, os homens de Allen são iguais. Se Morandi passou a vida fazendo garrafas, Woody passou a vida fazendo neuroses, e passou muito bem, obrigado. Não existe um, e eu disse que NÃO EXISTE UM filme ruim fruto dessa busca. E não digo isso apenas por dizer, mas a verdade mesmo é que A Última Noite de Boris Gruschenko (a vida só existe no amor e só acaba com a morte e tudo bem se divertir no meio disso tudo), Noivo Neurótico, Noiva Nervosa (aqui), Interiores (claustrofobismo urbano, relações íntimas), Manhattan (pragmatismo e paixão urbanos), Memórias (aqui), Sonhos Eróticos de Uma Noite de Verão (sexo versus amor), Zelig (“quem sou eu?”), Broadway Danny Rose (paixão), A Rosa Púrpura do Cairo (aqui), Hannah e Suas Irmãs (relações íntimas, homem versus morte, família, tudo!), A Era do Rádio (nostalgia), Setembro (claustrofobismo rural?, repressão interior), A Outra (repressão interior, meia idade) e Crimes e Pecados (o homem versus o pior do homem) são todos excelentes filmes que se encaixam na busca de um homem por uma ordem, por um sentido. Um homem que sabe que, por mais que tente, jamais conseguirá alcançar esses objetivos, sabe que jamais conseguirá fazer a obra prima que responda a todas essas inquisições milenares, mas que sabe apreciar esse processo, sabe como se divertir nessa busca e espera que todos nós nos entretamos também. As palmas ao final de Desconstruindo Harry são para ele, mas se engana quem pensa que Woody Allen é um homem completamente egocêntrico. Sutilmente, Harry logo rebate dizendo que, tudo o que ele é, tudo o que ele fez, é “graças a vocês”. “Vocês” é justamente o processo da busca, o gênio de inspiração que ilumina cada um dos maravilhosos filmes de Woody Allen que, sempre humildemente envolto em si mesmo, jamais deixa de nos alcançar em cheio, em virtude de cada uma de nossas excitações.

5/5

Ficha técnica: Desconstruindo Harry (Deconstructing Harry) – EUA, 1997. Dir.: Woody Allen. Elenco: Woody Allen, Richard Benjamin, Kirstie Alley, Billy Crystal, Judy Davis, Bob Balaban, Elisabeth Shue, Demi Moore, Robin Williams, Caroline Aaron, Eric Bogosian, Mariel Hemingway, Amy Irving, Julie Kavner, Eric Lloyd.

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