por Bernardo Brum

Visto por muitos como apenas um exemplar do que a Sessão da Tarde do Império de Roberto Marinho tem de mais memorável, Jurassic Park é isso aí: uma enorme referência – junto a Tubarão, Indiana Jones, Encurralado e outros – da excelência de Steven Spielberg quando o mesmo resolve não se levar a sério, relaxar e fazer um filme divertido à beça. E, curiosamente, feito no mesmo ano que o estadunidense quis ser levado a sério como artista e lançou o longo e dramático A Lista de Schindler.

Comentar Jurassic Park como o grande filme de aventura que é não é muito difícil. O filme é jogo ganho: efeitos especiais e sonorização de últma geração, elenco estelar e talentoso (entre eles, Sam Neill, Laura Dern, Jeff Goldblum e sir Richard Attenborough), clássica trilha de um John Williams no auge, uma computação gráfica orgânica como poucos conseguiriam gerar ainda que com o mesmo montante, tudo isso orquestrado por uma das mentes mais célebres do cinema que conseguiu tornar seu nome uma logomarca tão grande atualmente quanto Alfred Hitchcock e Frank Capra conseguiam ser décadas atrás: um sinônimo para a sétima arte.

Para a geração da década de 90, que testemunhou da queda do muro do Berlim até o auge dos grupos vocais chinelões, Jurassic Park é nada mais, nada menos, que um clássico eterno. É o que muitas gerações esperam que sejam cinema – é tradição que o cinema de Spielberg nunca confronte o espectador (e quando o faz, nunca de forma impactante), então voltemos a nossa atenção para a grande razão desse sucesso: a destreza e o timing com que Spielberg sempre trabalha no absurdo – no caso, dinossauros revivendo, fugindo do controle humano e tomando conta de uma ilha – e uma vez inserindo o espectador naquele universo, jamais voltando atrás, até o final.

E tome aventura, suspense, humor levemente negro, perseguição, gritaria… Uma grande vitória do cinema high-concept, que estendia para lém da película produtos como bonés, brinquedos, pôsteres e outras bugigangas colecionáveis e facilmente descartáveis, impulsionados por nada mais nada menos que a grande fórmula de gente como Howard Hawks de se fazer um bom filme – além da já clássica “três cenas excelentes e nenhuma ruim”, que o filme segue a risca – mas também a grande mescla de artifícios dramatúrgicos, da intensidade dramática à comédia histriônica, flutuando da sutileza – uma das coisas que tornam o filme inesquecível é como o diretor apresenta apaixonadamente cada bicho pré-histórico, desde a majestade do Braquiossauro ao terror da visão de um T. Rex, passando pelo calculismo frio (psicótico, se fosse humano) dos Velociraptors e a hilaridade de um Dilofossauro (que ataca o sabotador gordinho exibindo sua crista e cuspindo ácido) – até o frenesi total (quanto a isso, não é necessário lembrar demais – fugir de velocis; escalar cercas eletrificadas; tentar não entrar em desespero em frente a um predador bem maior que você), Stevie arquiteta lances que só alguém que estivesse se divertindo muito com aquela empreitada tão inacreditável conseguiria pensar, ancorado por toda a equipe – e os atores são um bom exemplo disso, uma vez que não constróem seus personagens e sim entendem suas criações como nada mais que arquétipos  (paleontólogo aventureiro, scream queen, traíra desajeitado, matemático curioso, velho sábio, crianças prodígio) responsáveis por dar foco e dinâmica à ação e fazer o espectador acompanhar o desencadear vertiginoso dos fatos.

Dito isto, vê-se que logo do início, desde a escolha do tema, Spielberg quis trabalhar distante da reconstrução estilizada que fez no mesmo ano em Schindler e desconsiderou verossimilhança, compromisso, credibilidade (são poucos os dinossauros que o diretor não tomou uma ou mais liberdades criativas) e pariu daí um dos grandes clássicos dos filmes-pipoca, mais um que ele pode juntar à sua coleção de êxitos de bilheteria e dizer que sim, ele sabe como envolver todo mundo nas suas brincadeirinhas, de trens desgovernados em fitas caseiras à última moda em tecnologia digital, e não tem vergonha de admitir isso. Ou é mentira que após anos de continuações caça-níquel e dramas de medíocres a excelentes, ele conseguiu lançar Guerra dos Mundos e Indiana Jones no Reino da Caveira de Cristal, filmes tão absurdos e divertidos quanto Jurassic Park e, mesmo em épocas de Michael Bay, Roland Emmerich e outros, ainda conseguiu levar uma parcela considerável de público para ver seu jeito de fazer aventura à moda antiga?

Pois é. Descanse suas preocupações intelectuais um pouco e vá correr de uns dinossauros. Tudo isso com o selo de qualidade Steven Spielberg.

4/5

Ficha técnica: Jurassic Park – O Park dos Dinossauros (Jurassic Park) – EUA, 1993. Dir.: Steven Spielberg. Elenco: Jeff Goldblum, Samuel L. Jackson, Sam Neill, Wayne Knight, Laura Dern, Richard Attenborough, Bob Peck, Martin Ferrero, B.D. Wong, Joseph Mazzello, Gerald R. Molen, Ariana Richards

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