por Bernardo Brum

Foi com O Vingador do Futuro que Verhoeven, além de dirigir seu filme mais otimista (à sua moda pervertida, é claro), fez a sua maior declaração de amor ao cinema. Ficção científica básica, movimentada e frenética adaptada de uma história de Philip K. Dick, estrelando o astro de ação definitivo Arnold Schwarzenegger e que com o passar dos anos foi considerado apenas mais um exemplar da ação descerebrada que reinou nos anos 1980, com tiros em profusão, efeitos especiais em quantidade inacreditável, sangue, tripas e buracos de bala explícitos, piadinhas sexuais um tanto inocentes hoje em dia…

Devido a abordagem diferente que Verhoeven quis dar a uma obra de K. Dick, longe, por exemplo, da abordagem  mais “moral” que Ridley Scott mostrou em Blade Runner (se utilizando do sci-fi para perguntar sobre ser ou não ser), O Vingador do Futuro pouco se assemelha ao clima da história original: longe do clima de derrota de We Can Remember It for You Wholesale e dos demais romances e contos cyberpunks, que tornam seus protagonistas indivíduos fora da lei e desesperados batalhando contra um inimigo muito maior que ele, Schwaza é um homem que tem que igualmente lutar contra o governo, mas além de ser mais esperto, rápido, inteligente e foda que qualquer um que cruze o seu caminho, ele também é um daqueles personagens de trinta anos atrás, como o próprio diretor revela no início, mostrando ao medíocre e ignorante protagonista a possibilidade de conseguir memórias falsas, ou seja, uma óbvia encenação, como um filme mesmo, onde ele vai conseguir matar os caras maus, ficar com a gostosinha e salvar o planeta.

Quando o protagonista é confrontado com o fato que ele nao precisa implantar memórias falsas porque ele é de fato como os astros de filme de ação tão cohecidos e tinha apagado a memória por um motivo que ele só vai descobrir lá na frente, O Vingador do Futuro finalmente se transforma em um exercício de estilo explosivo, movimentado e algo brega, sem muito tempo para pensar nos conceitos cyberpunks. Só podendo manter a concentração na ação, o que temos é uma história  que, em velocidade vertiginosa, muda de rumo várias vezes – é uma saraivada de aparentes inimigos que se revelam aliados, aliados traíras que trabalham para o sistema do mal, cientistas e agentes secretos loucos e por aí vai, onde o protagonista, homem comum jogado naqueles enquadramentos de cenários azuis e gélidos ou de um vermelho nauseante, terá de brigar na raça com quem quer que seja – inclusive ele mesmo.

Ao longo da projeção, Douglas Quaid tentará salvar Marte das garras da corrupção das grandes companhias, que como em muitas das piadas sobre o futuro, também comercializam o ar e se negam a acionar as grandes fontes de oxigênio que transformariam Marte em um planeta habitável. Para isso, terá que seguir e então desobedecer todos os roteiros que foram traçados para ele; quando descobrir a si mesmo como alguém sujo, se reinventar na base da força, do poder de fogo e dos cojones. Para poder contribuir com a sociedade como um todo será preciso derrotar a máquina, negar a si mesmo e cumprir o itinerário que as falsas memórias determinaram para ele.

O “total recall” ou lembrança total de Quaid torna ele um ninguém – um elo perdido na transição entre o homem comum e o espião insuperável que teve seu cérebro tão remexido que perde a identidade. Numa cadeira que foi pensada para David Cronenberg e um lugar na frente das câmeras que sondou de Patrick Swayze a William Hurt, Verhoeven e Schwarzenegger revivem a clássica jornada heróica rumo à salvação e a redenção de uma forma absolutamente cinematográfica – a idéia de realidade é destruída e qualquer verossimilhança é abandonada; o principal personagem morre quando senta numa cadeira para então reviver em um novo e excitante mundo; e em um clima que só o cinema blockbuster consegue proporcionar, uma história sobre – como diria o Renatão – “o sistema é mau, mas a minha turma é legal”.

Simples e maniqueísta assim, mas também, tremendamente funcional. O que queremos  quando sentamos a bunda na cadeira para ver uma obra de ação? Certamente, abandonar  uma carcaça limitada e nos jogar no mundo das possibilidades infinitas, conseguir a mulher dos nossos sonhos, explodir e metralhar tudo que aparecer no caminho e assim. Esse foi sempre o fetiche de Douglas Quaid, a porcentagem “pessoa normal” de Scharwzenegger no filme que recusa o que não quer de sua faceta Arnold-andróide-fodão e pega a parte útil (força capaz de dobrar e partir aço, pontaria de um elfo de Tolkien, reflexos de um gato, e lá vamos nós) para a velha reinvenção que o sistema de ação sempre se propôs.

Esse “cérebro” possuído pela obra, apesar de servir como ponto de partida de reflexão, é antes um comentário bem humorado e também, como já dito, uma “carta de amor” à sétima arte e um convite ao espectador; um inspirado agradecimento ao lugar onde, por tantas vezes, por mais ou menos uma hora e meia, nunca erramos um alvo, abrimos um buraco no meio de uma testa, salvamos os necessitados e acabamos admirando o alvorecer e beijando a gostosa. Nós não conseguiríamos nos sentir como Rambo, Braddock, o Exterminador em nenhuma outra arte, só no cinema mesmo. E, obviamente, esse lance infantil e plenamente consciente do filme encontra voz em muitas pessoas – mesmo depois de tantos e tantos filmes mais artisticamente comprometidos, ainda nos resta a lembrança gostosa do nosso primeiro contato com o cinema, que foi em muitos casos, vejam vocês, com a ação descerebrada. E O Vingador do Futuro é um tributo a isso e, talvez, uma das únicas vezes que ocorreu esse reconhecimento dessa faceta específica de uma cultura…

… Mas é claro, e como não poderia deixar de ser, um reconhecimento sem frescura, com mais de dois mil tiros disparados, muito mau gosto estético e uma mina com três peitos!

Screenshots

5/5

Ficha técnica: O Vingador do Futuro (Total Recall) – EUA, 1990. Dir.: Paul Verhoeven. Elenco: Arnold Schwarzenegger, Sharon Stone, Ronny Cox, Michael Ironside, Rachel Ticotin, Marshall Bell, Mel Johnson Jr., Michael Champion, Robert Picardo, Debbie Lee Carrington, Dean Norris, Bob Tzudiker

Anúncios