– por Guilherme Bakunin

Numa de suas massivas produções, Paul Verhoeven abre seu filme em 1954 num pequeno vilarejo em Israel onde Rachel Stein vive com o esposo e os filhos numa simplicidade tocante, bucólica. Com a visita de Ronnie, uma antiga companheira de conspiração, Stein relembra do passado tortuoso onde ela viveu na pele o perigo de tramar contra o terceiro Reich, dentro dele. Stein se torna Ellis de Vries, uma sensual alemã que seduz e se apaixona pelo general Müntze a favor de um grupo de resistência holandês. de Vries se instala dentro da base da ocupação nazista na Holanda, outrora uma biblioteca (e isso diz muito sobre a carnificina cultural promovida pelos alemões na segunda guerra), para derrubá-la e libertar a sua terra natal.

A Espiã é um dos melhores e mais consisos trabalhos de Verhoeven. A começar no tema, o qual o cinesta é especialista. Não apenas por ser uma trama da II Guerra Mundial, mas porque se passa no seu próprio país e o herói, vejam só, não é um homem, mas uma mulher. Uma holandesa judia, convicta de seus ideais. Livre. A trajetória da heroína através dos anos de guerra é narrada com emoção pelo filme, a trilha funcionando para engrandecer cada ato heroico por parte da resistência, para escalonar os momentos dramáticos, para aumentar progressivamente ao longo das duas horas de flashback a densidade da atmosfera. Essa densidade está ligada intimamente ao senso de perigo, à tensão. Aumenta progressivamente porque da mesma forma aumenta a ‘jurisdição’ e consequentemente a responsabilidade de Ellis na história. Esse é difinitivamente um jeito muito interessante de aproximar-nos de um filme sobre a segunda guerra, algo que é tão próximo mas ao mesmo tempo tão distante do nosso cotidiano. Ao invés de dramas rasos narrados de forma competente (O Resgate do Soldado Ryan), ou uma visão bem reducionista sobre o confronto que diz apenas que a guerra é ruim e ponto (Forrest Gump), Verhoeven vai na contramão e transforma resistentes em vilões, e nazistas em heróis martíricos, muda os lados do tabuleiro, não apenas pela mudança em si, pois dessa forma seria um artifício vazio, mas subverte para justamente mostrar que existem pessoas por trás das armaduras nazistas, homens atrás dos trapos felpudos da resistência. É notável, portanto, que esse aspecto de A Espiã tenha chegado justamente no filme onde Verhoeven se afasta de Hollywood, volta às raízes da sua mãe-pátria. Não que Verhoeven tenha sido contra sua carreira na América, não que ele vá abandoná-la. Isso significa apenas que existem outros lados para serem explorados no seu pensamento como artista do que aqueles que já conhecemos na primeira e segunda fase de sua carreira.

Sobressair-se em um filme onde todos os aspectos são atronomicamente grandes seria uma missão impossível para os atores e eu não sei sobre os outros, mas Carice van Houten é impactante. Assim como sua personagem, possui mil faces, mil expressões, que dizem exatamente o que se passa dentro dela. É uma entrega tão esmerada para um papel que vai realmente no ponto do que é uma atuação: uma espécie de expressionismo, onde toda a aparência deve orientar-se para ditar o que se passa interiormente com um personagem. van Houten cumpre essa ideia com maestria. Uma pena que tanto atriz quanto filme tenham sido subestimados no reconhecimento. A Espiã esteve no Brasil, certo, mas não da maneira que deveria. Não é nem um filme difícil e definitivamente é melhor do que as últimas coisas sobre a guerra que aparecem nessa década (perceba como Bastardos Inglórios é hours concours aqui). O fato de ser um filme holandês, dirigido por um cara extremamente subestimado pelo público que vai para seus filmes como quem vai para um sopão com um pires raso diz muito sobre isso. Verhoven tem um cinema de profundidade, de personagens e de social. Existem camadas a serem  exploradas em seus trabalhos, algo que está muito além de seios ou robôs, algo que está muito além do que críticos com má vontade podem enxergar. E Verhoeven não os quer. Antes, quer as grandes pessoas comuns, que vibram com uma grande estocada de picador de gelo (Instinto Selvagem), com uma grande frase de efeito numa grande idéia (Robocop), com um grande filme como este.

5/5

Ficha técnica: A Espiã (Zwartboek) – Holanda, 2006. Dir.: Paul Verhoeven. Elenco: Carice van Houten, Sebastian Koch, Thom Hoffman, Halina Reijn, Waldemar Kobus, Derek de Lint, Christian Berkel, Dolf de Vries, Peter Blok, Michiel Huisman.

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