por Bernardo Brum

Se em Louca Paixão Paul Verhoeven já havia dissertado sobre os limites (ou a falta dos mesmos) por um outro indivíduo, o épico de guerra Soldado de Laranja é a história da dedicação a um ideal: a de um universitário que passará os auréos anos de sua vida batalhando como infiltrado, mercenário e sabotador disposto a livrar o seu país da lei que ele não queria – o avassalador nazi-facismo que oprimiu várias culturas com suas idéias generalistas e totalitárias.

A abordagem não poderia ser outra vinda de quem cresceu perto de bases e campos de batalha – Eric, o herói de guerra intepretado por Rutger Hauer, é o alter-ego do diretor: preso à velha cultura, servo da rainha e, aparentemente, um verdadeiro caxias, mas também um libertário, inseguro e perdido. São poucos os diretores do mesmo período que, ao retratar um herói de guerra, também se preocupariam em mostrar seu lado mais humano, seu lado sexualizado, sua certa ingenuidade (atentem,  não do  filme, mas sim do personagem, às voltas contra toda uma sociedade impassível e só ao longo do filme tendo dimensão da mesma) e sua única chance de sobrepujar e sobreviver no seu maior norte: o ideal.

O ideal, é claro, irá custar caro: amigos, mulheres e demais relações de afeto serão trituradas sem dó por traições, torturas e assassinatos. Ao mesmo tempo que parece ser um câncer e destruir toda uma vida, é esta esperança, este símbolo que representa para ele que o mundo ainda poderá ser um lugar melhor, que lhe dá um motivo para continuar. Essa ambiguidade afasta o filme de qualquer saída fácil ou maniqueísmo de “nós contra eles”: todos temos ideais, todos estamos a caminhos de uma corrupção sob a qual podemos nos submeter ou não e todo qualquer indivíduo é vítima das circunstâncias do coletivo. Regra número um de Verhoeven, que perdura até os seus filmes recentes: “o inferno são os outros”.

Ao final do filme, Erik lembra, nostalgicamente, dos seus áureos anos, antes de toda a violência da Segunda Grande Guerra assumir seu lugar na ordem das coisas de forma violenta, e quanto de seus companheiros não tiveram a mesma sorte que ele. Mas isso não importa mais. O ideal prevaleceu e perdeu o sentido. E agora, tudo que ele pode fazer é pensar no futuro. Que apesar de tudo, tem a possibilidade de trazer melhores dias para se viver, longe daquele insensato mundo.

4/5

Ficha técnica: Soldado de Laranja (Soldaat Van Oranje) – Holanda, Bélgica. Dir.: Paul Verhoeven. Elenco: Rutger Hauer, Jeroen Krabbé, Edward Fox, Derek de Lint, Susan Penhaligon, Lex van Delden

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