– por Guilherme Bakunin

Como um relâmpago, o choque de Instinto Selvagem é repentino e instantâneo. Durante uma cena incontida de sexo uma mulher fatal retira um picador de gelo da manga e perfura, trinta e seis vezes, um homem. É a primeira vez, ainda nos primeiros cinco minutos de filme, que seria traçada uma relação direta entre sexo e perigo. Com um caso de homício em mãos, Nick Hoss, numa interpretação expressiva de Michael Douglas procura por pistas para resolver o caso, chegando, em poucas horas, à mansão da assassina: Catherine alguma-coisa, selvagem, sensual, segura: Sharon Stone no ponto alto de sua carreira. Se desde já sabemos quem é o assasino e logo no início o detetive o encontra, as intenções do filme não são nenhum pouco esperadas de um suspense mais tradicional. Antes, é mais Hitchcock. Por pouco mais de duas horas, é traçado um perfil psicológico monstruoso do personagem de Michael Douglas, além de construído um embate de forças mentais e sexualmente sugestivas entre Nick e Catherine. O foco de Instinto selvagem é o conflito, interno e externo de seu protagonista.

Não é por menos que uma das grandes sequências do filme (particularmente a que mais me chocou) seja o interrogatório policial. Com um abrir de pernas, Catherine desfere o golpe fatal que garantiu a vitória. Antes e depois disso, perguntas e respostas, arrogância, ira, desmascarações, sugestões, sorrisos falsos. A maior batalha do filme não trabalha com o toque, mas com o sutil, o contido. Embora uma cena de genitais explícitos (que ilustra o nosso atual banner), a ação é contida pois o que realmente importa está por trás de algo que é inegavelmente menor (a busca da polícia pelo assassino).

Após a feroz introdução, fatos e personagens passeiam pela tela sob a forma de palavras. Figuras do passado de cada um dos personagens principais: Beth, Catherine e, claro, Nick. Traumas. Nick tem um passado negro na polícia, matou acidentalmente alguns turistas e ficou pejorativamente conhecido como ‘Atirador’ pelos colegas. A simples menção desse fantasma do passado faz Nick entrar em ebulição; Catherine é misteriosa e procura deixar tão claro que ela pode perfeitamente ser a culpada pelo assassinato, que há momentos em que acreditamos na inocência dela. Beth, psicóloga de Nick e ex-colega de Catherine no ensino médio, alerta o herói mais de uma vez sobre a genialidade e periculosidade de Catherine. Através desse triângulo amoroso, através de busca de Nick pela verdade, permeando a trama com investigação detetivística e cenas avassaladores de sexo. Verhoeven homenageia o mestre do suspense em cada plano, revelando uma história de obsessão e sensualidade por trás de um conto monstruoso sobre psicopatas e policiais. Já próximo ao final do filme, Beth e Catherine lançam Nick de um lado para o outro, num conflito manipulativo onde o herói já perdeu as esperanças de libertar-se de seu passado maculado e livrar-se de seus vícios, buscando apenas a verdade, como se nada mais importasse.

O interessante aqui é toda a ideologia noir empregada em um filme que, em 1992, foi um sucesso tremendo (por motivos diferentes pelos quais eu o admiro). Nick É um herói noir, com toda a sua alma obscura, com todo seus problemas, com todo seu temperamento explosivo e ímpeto sexual. Catherine É a femme fatale, com suas respostas rápidas e que atingem como flechas o coração (leia-se genitais?) do herói. Beth deveria ser o alívio para esse relacionamento conturbado. Deveria ser o escape para que o herói pudesse ter uma redenção. Mas não é, pois Instinto Selvagem vai além, transforma a psicóloga em uma femme fatale também, com seus lábios carnudos entre abertos, seu terninho escorregando pelos ombros, sua sensualidade sendo derramada na tela. Duas femme fatales em um único noir. Isso perturba qualquer Marlowe, qualquer MacMurray, quiçá do nosso trágico Nick, que não tem forças suficientes nem mesmo para ser preto & branco. O mundo moderno não pôde ajudar o herói de Instinto Selvagem, pois de todos os lados surgia a ameaça. “Shooter!” na SFPD, “Shooter!” na manção de Catherine, “Shooter!” nas consultas ao psicólogo (Beth! Como se curar?). Cada vez mais atormentado, cada vez mais violento, cada vez mais fumante, Nick só pode se concentrar em encontrar a verdade para então poder julgar Catherine e tentar fazer o seu subconsciente, completamente fissurado pela foda do século, desapaixonar-se. Quem o auxilia, então, é seu melhor e único amigo Gus.

Mas Gus morre tragicamente, com gritos quase femininos. Completamente humilhado, completamente submisso. Beth estava lá e o Shooter que estava adormecido no âmago de Nick desperta com furor, arrasando por completo com a sensual psicóloga. Ela termina dizendo que amou o nosso herói. Todas as provas incriminam Beth, no seu apartamento existia uma espécie de altar dedicado à obsessão por Catherine, sua antiga colega de escola. A polícia encerra o caso. O espectador menos atento pode até deixar-se convencer por alguns minutos, mas lembrem-se da cena que abre o filme. Beth não era a assassina. Era Catherine. E é com ela que Nick vai terminar, é com ela que ele vai procurar refúgio, no sexo, afogando suas mágoas numa relação tempestuosa e plenamente carnal. Catherine por outro lado quer eliminar Nick. Ela tem que fazê-lo, faz parte do processo ritualístico pelo qual ela aborda seus personagens em seus livros, pelo qual ela vive pela sua vida amorosa, destruindo todos os que ousam tocá-la. Mas ao final, ela também se rende ao sexo com Nick, também se entrega à paixão. Nick vai morrer, definitivamente ele vai, em qualquer ponto do tempo dali pra frente. Mas Catherine é desprezível demais para rejeitar ali, naquele momento, o toque do trágico herói, e levará essa relação doentia para frente até que ela se canse dele, para então começar tudo de novo.

Screenshots

5/5

Ficha técnica: Instinto Selvagem (Basic Instinct) – 1992, EUA. Dir.: Paul Verhoeven. Elenco: Michael Douglas, Sharon Stone, George Dzundza, Jeanne Tripplehorn, Denis Arndt, Leilani Sarelle, Bruce A. Young, Chelcie Ross, Dorothy Malone, Wayne Knight, Daniel von Bargen, Stephen Tobolowsky, Benjamin Mouton, Jack McGee, Bill Cable.

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