– por Luiz Carlos Freitas

Li certa vez que Sem Controle, penúltimo filme de Paul Verhoeven na Holanda, foi o responsável pelos convites ao diretor de filmar nos EUA. Particularmente, não vejo muito fundamento nisso. Não que o filme não seja bom (muito pelo contrário). Porém, a subversão já característica do cinema do holandês alcança um de seus ápices aqui, sendo talvez o seu trabalho mais “repulsivo” até então (apesar de ainda achar que O Quarto Homem mantém-se com folga no posto de mais demente).

Sem Controle pega uma trama que já se mostrara eficiente (principalmente no cinema americano), mostrando um grupo de amigos montados em suas motocicletas e percorrendo as estradas em busca de sexo, bebidas e diversão. Porém, diferente de clássicos do gênero como Os Embalos de Sábado à Noite, Loucuras de Verão ou Sem Destino (qualquer semelhança nos títulos não é mera coincidência), que apresentaram jornadas distintas daquela geração em busca da liberdade, a obra de Verhoeven ia além, rompendo barreiras que certamente John Badham, George Lucas e até mesmo Dennis Hopper (sujeito colhudo, não duvidamos) não se atreveriam.

Há toda a sorte de cenas de fazer os americanos virarem a cara:  sexo  oral explícito, um grupo de amigos disputando para ver quem tinha o maior pênis, além de uma demorada sequência onde todo um grupo se reveza para estuprar um rapaz; tudo filmado bem ao modo do diretor, com a câmera “fria”, que não deixa escapar nada (e com alguns closes realmente atordoantes).

Esse clima de total desconforto que impera em Sem Controle nada mais é que Verhoeven fazendo uma releitura dos road movies americanos, envolvendo os ideais da busca pela liberdade na estrada em um clima de completo pessimismo e descrença. Seus personagens são verdadeiros “Zé Ninguém” que buscam uma vida melhor. Um deles resolve enveredar pelo mundo do crime em busca de dinheiro fácil; o outro, ávido sonhador, sofre um acidente e fica paralítico. Todos acabam vendo suas vidas se transformando em completos poços de amargura, ficando evidente que tudo era consequência de terem ido atrás de seus sonhos.

Há uma cena que define o filme: o rapaz paralítico vai a um culto e, em meio às preces fervorosas dos fiéis, começa a gritar, como num transe, que Jesus estava ao seu lado e que poderia senti-lo curando-o. A multidão grita, sorri e chora enquanto ele firmemente apóia suas mãos na cadeira de rodas e tenta ficar de pé … E cai sentado de uma vez, faz silêncio e solta uma gargalhada cruel: “Eu só queria ver a cara de vocês acreditando que Jesus estava mesmo aqui pra me curar”.

O peso maior de Sem Controle não está em somente mostrar que podemos perder nossos sonhos pelo caminho, mas em atentar ao fato de que talvez nossa única saida seja mesmo aceitar que os sonhos sempre se perdem e, pior, ter de rir dos que ainda acreditam.

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3/5

Sem Controle (Spetters) – Holanda, 1980 – Direção: Paul Verhoeven – Elenco: Hans van Tongeren, Renée Soutendijk, Rutger Hauer, Toon Agterberg, Maarten Spanjer, Marianne Boyer, Peter Tuinman, Saskia Ten Batenburg, Yvonne Valkenburg, Rudi Falkenhagen

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