– por Guilherme Bakunin

Os dizeres ao final do filme qualificam Keetje Tippel como uma jovem de espírito indomável e ainda garante ao filme que esse seu espírito permanece no trabalho. Não há muita liberdade nessa obra de Paul Verhoeven, que em outras vezes já foi mais livre no que concerne a edição e temática de seus filmes, mas que aqui, até pelas rédeas da produção e do próprio fato da obra se originar de um livro autobiográfico, o que inexoravelmente a delimita, acaba ficando aquém do que realmente poderia. Há um toque quase reacionário no modo como a história da senhorita Tippel é conduzido, sempre previsivelmente. O que liberta o filme é justamente a personagem, a antítese do que acontece a sua volta: ingênua, infantil, alegre, empenhada, honrosa. É pela honra de seu próprio nome que Keetje cega temporariamente a colega de trabalho; é por seguir o próprio ímpeto da alma que ela escolhe o homem errado; é pela falta de maldade que ela não percebe a péssima, porém amadurecedora escolha que fez.

A obra, como disse, surgiu a partir do livro publicado em algum lugar no começo do século pela vencedora do prêmio nobel Neel Doff. Doff é conhecida por ser uma grande “poeta do proletariado”, já que realmente se engaja, em todos os níveis de sua vida, na luta pelos direitos dos desfavorecidos. O que me intriga, e isso vem de alguém que jamais havia ouvido falar na autobiografia de Doff, é como a obra de Verhoeven pode ser tão isenta disso. Claro que há os contornos “comunistas”, como na cena que ilustra o post, e claro que o fato dessa cena ser de fato a primeira (e única, à primeira análise) do filme que realmente se mostra como uma índole proletária e ter aparecido lá pra depois da metade do filme não significa muita coisa, pois podemos defender dizendo que a gênesa de Tippel como lutadora pelos direitos trabalhistas é parte constituinte de sua história política. Sim, podemos defender. Eu, porém, não o farei. Isso porque a introdução do filme não sugere nada do tipo, não há uma edição que me convença que aquela pobreza e aquela des-humanidade fizeram eclodir uma heroína dos operários.

Isso não quer dizer nem um pouco que estamos tratando aqui de um filme mal dirigido. Digo, apenas, que o foco não ficou no ponto esperado (ou mais adequado, ousaríamos dizer?). Isso porque a história da vida de Keetje Tippel é intrigante, bonita. Pobre, veio de algum lugar com a família para Amsterdã na esperança por uma vida melhor. Aquela velha história. De imediato, não consegue. É obrigada a trabalhar em alguns lugares antes de ser estuprada pelo seu chefe e iniciar a sua vida na prostituição em troca de pão para sua prole. A filmagem emprega áres semiselvagens à família de Tippel. Quase que sob a ótica uma ótica moralista, eles são concupiscentes, vaidosos, imediatistas. Não podemos julgá-los, mas eles estão preocupados demais com o que comer do que com outras coisas. Tippel, por outro lado, lê um livro, imagina uma vida fora daquele subsolo escuro, úmido. E mesmo com a opressão familiar que obriga a jovem a trair sua própria alma e seus próprios trejeitos, forçando-a a vender seu corpo, ela consegue escapar no final, tornando-se rica, influente, importante. Um destino feliz, próspero, que Verhoeven não se preocupa em entregar ao espectador. Sabemos disso através de legendas e pesquisas pós-filmicas. O cineasta apenas nos fornece uma visão emblemática de Tippel, ingênua, sugando o sangue da testa do amado e sujando seus doces lábios por causa disso. Um gesto, umas palavras e um olhar que definem a liberdade e pureza espiritual de uma ex-pobre-prostituta, que lutou contra a vida e venceu.

A tristeza só está na ideia de que Verhoeven não explorou (ou não pôde explorar, por causa do orçamento) o que de melhor sua história tinha para oferecer, concentrando-se piamente seus eforços em uma sensualidade por muitas vezes exagerada, desnecessária, imbecil. Claro que a mesma sensualidade é responsável por bons momentos, como a visão da mãe fitando a carne no açougue ou saboreando uma salsicha (?); ou a cena que encerra o filme; ou a cena do estupro, com toda certeza um dos melhores momentos do trabalho. Em outras vezes, no entanto, é apenas um artifício fraco, que talvez e eu disse talvez sugira que Verhoeven não tinha tanto assim o que dizer.

3/5

Ficha técnica: O Amante de Keetje Tippel (Keetje Tippel) – Holanda, 1975 – Dir.: Paul Verhoeven – Elenco: Monique van de Ven, Rutger Hauer, Andrea Domburg, Hannah de Leeuwe, Jan Blaaser, Eddia Burgman, Peter Faber, Mart Gevers, Riet Henious, Walter Kous, Tonny Popper, Jan Retèl, Fons Rademakers, Riek Schagen, Carry Tefsen.

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