– por Luiz Carlos Freitas

O argumento de Robocop, claro, é a história de Cristo. É sobre um cara que é crucificado nos primeiros 50 minutos e é ressucitado nos 50 minutos seguintes. Assim como o original, ele sofre uma transformação, com a diferença de que meu personagem não tem a mesma piedade. Ele chega e simplesmente mata a todos. E isso é, naturalmente, o Jesus americano.”

Paul Verhoeven


O sarcasmo, o cinismo e, principalmente, a naturalidade com que as palavras são tratadas tornam a referência ao final da citação bem desnecessária. O imenso poder de fogo dessas poucas linhas remetem de cara ao diretor holandês, conhecido justamente por sua força ao retratar a sordidez (seja no homem ou em seu meio).

Robocop, O Policial do Futuro pode não ser o seu primeiro trabalho em terras yankees (posto ocupado por Conquista Sangrenta),  mas é indiscutivelmente o divisor de águas de uma incrível carreira iniciada no underground europeu, quando vêm os altos orçamentos (e bilheterias), o reconhecimento mundial e o título de “diretor cult”. Adaptando a obra de Frank Miller, o diretor faz da história do policial Alex Murphy, que após torturado e assassinado em uma emboscada, volta à vida como o andróide Robocop, projetado pela OCP (mega-coorporação que controla tudo na cidade, da indústria aos políticos) para ser o “policial perfeito”, uma obra sem igual na década de 80. Aliando um incrível domínio técnico e o orçamento pomposo ao seu estilão característico,  Verhoeven cria um dos personagens mais marcantes da história do cinema, uma das críticas mais implacáveis ao domínio da tecnologia sobre a sociedade que, apesar dos efeitos stop motion (que, particularmente, acho mais agradáveis de se ver que o já tão banalizado CGI), figurinos e trilha oitentistas, parece não sentir o passar dos anos, ficando espantosamente mais atual.

Mas vamos além na tentativa de aproximar a obra do realizador. Partindo da divisão colocada pelo próprio Verhoeven na citação que abre este texto, sendo um filme de dois atos marcados pela “morte” e “ressurreição”, podemos ver no personagem de Murphy a representação da carreira do holandês. Robocop, como Verhoeven disse numa entrevista, é também sobre “o triunfo da alma”. O personagem é um homem transformado em máquina, mas que começa a entrar em conflito com sua programação, tendo flashes de memória e questionando o código que o rege, até voltar à sua essência, mas sem romper com essa nova condição. Essa era, também, exatamente a situação do [novo] cinema de Verhoeven.

Sua carreira, até então, era marcada pela sordidez dos personagens, violência e nudez explícitas, linguajar chulo, escatologia e demais elementos de um cinema “sujo”, mas com total identidade, tal como Alex Murphy enquanto “humano”. Em 1983, com O Quarto Homem, ele alcança o ápice da subversão na fase holandesa, uma de suas maiores obras-primas e, talvez, seu filme mais demente. E é esse trabalho que o leva à América. Seu cinema, até então, “morre” no auge da baixeza (isso foi em tom elogioso, acreditem), do mesmo modo que Murphy, em uma cena brutal de tortura e assassinato (uma das mais violentas que já presenciei em um filme americano tão comercial que não fosse propriamente do gênero terror). Eis então como entrou nos EUA e em seu modo de se fazer filmes.

Recursos não faltavam a Murphy (a tecnologia de sua armadura de metal indestrutível e das armas de última geração) e Verhoeven (respaldo dos grandes estúdios e seus orçamentos pomposos), mas a sua essência estava sempre em conflito. A essência dos dois era de conflito (Murphy, fazia as vezes do humano – todos nós vivemos em eterno conflito – e Verhoeven fazia do seu cinema uma forma de conflito com todo o resto), e um possível controle desmedido por forças externas (representadas pela armadura que o envolvia) soa apavorante. O resultado do conflito entre “alma vs. máquina”: em uma simbiose perfeita, Murphy e Robocop se tornam um só, e a alma controla a máquina; Verhoeven resgata o seu cinema (que muitos críticos ainda batem cabeça dizendo que ficou na Holanda), o ressucita e, usando de todas as vantagens da nova “pátria”, constrói uma carreira absurdamente fantástica que não deve em nada às suas origens. Contudo, a América e, por projeção pelo alcance que as obras hollywoodianas possuiam historicamente, o mundo, não estavam preparados para tudo que sua mente doentia queria e poderia criar. E ele sabia disso, já sentia as barreiras que os estúdios impunham. Tanto que o Robocop, mesmo tento a alma controlando a máquina, ainda era “preso” pelo código de “justiça” agregado à sua programação (uma das diretrizes, por exemplo, era não matar funcionários da OCP – e essa é explorada genial clímax final do filme).

Isso lembra muito o que aconteceu com outros cineastas consagrados, como Fritz Lang (mudando-se da Alemanha aos EUA). E, guardando as devidas proporções da comparação, em seus primeiros trabalhos após a mudança, ambos compartilham de uma ânsia de entender o novo país, sua cultura e, claro, seu modo de fazer cinema. E se em Fúria e Só se Vive Uma Vez, Lang se projetava na figura do forasteiro que sofria com a indiferença dos que o deveriam acolher e enfrentava a maldade característica dos homens  (tema recorrente de sua filmografia), Paul Verhoeven fazia a sua transição bem a seu modo: o agente de mudança é relegado ao segundo plano pelo “espectador”.

Após a morte de Murphy e a subsequente “ressucitação”, todas as cenas do mesmo até a grande aparição como Robocop, em que ele passeia entre os policiais, dirige nas ruas escuras de Detroit e encara os criminosos, são em primeira pessoa. Mais que uma excelente escolha de narrativa (mantém o suspense do público até a sua tão esperada aparição como a máquina transformada), representa bem essa já citada transição, tão marcada pela observação e assimilação de novos costumes. Mas eis que sai o espectador e, se a cena da morte de Murphy, que segundo o próprio diretor, é uma reconstituição da crucificação de Jesus, já pincelava o criador de quadros dementes que chocou o mundo lá da Holanda, a vingança de Murphy/Robocop é o seu cartão de “sinto-me em casa”.

Robocop vai dando cabo de um por um, sempre do modo mais brutal e violento possível. E mais violento ainda é o modo como tudo é mostrado. Cabeças explodindo em close, pele derretendo em câmera lenta, sangue espirrando longe como se fosse pegar em quem assiste. A câmera de Verhoeven é tão fria e impassível quanto o algoz dos vilões e, ao mesmo tempo, constrói uma relação de proximidade absurda com o espectador. Impossível não vibrar com os assassinos sendo eliminados em sequênca e, talvez daí, já surja um outro ponto: o que a nós é visto como uma vingança, à Murphy não vai além da justiça; e esse modelo brutal de justiça seria nada menos que o reflexo de uma sociedade tão ou mais brutal.

A sociedade retratada pelo clima futurista de Detroit é um primor, a começar pelo fato de que não sabemos em que época o filme se passa. Sabe-se que é um futuro próximo pelo avanço tecnológico. Mas as roupas, penteados, estilos de vida e tudo mais é a cara daquela época. Esse aparente paradoxo é, na verdade, uma marca de atemporalidade, e a brutalidade que a cidade (e, indo além, a sociedade) carrega em seus becos, esgotos e escritórios, que, podendo ser facilmente vista ainda nos dias de hoje (e do mesmo jeito), talvez signifique que o autor quisesse mostrar que essa perversão e sanguinolência é uma marca da sociedade em si, algo que infelizmente nunca mudará. Aliás, curiosamente é o dono da OCP um dos que mais desaprovam essa idéia de “policial perfeito”. E interessante notar que no filme seu personagem não tem nome, sendo creditado apenas como “O Homem Velho”, como se os tempos de hoje viessem a exigir das pessoas essa entrega ao “novo sistema”, aonde humanos são obsoletos e os que acreditam no potencial do homem são cada vez mais raros, em um passado distante, sem identidade (o mesmo conceito defendido pelos irmãos Coen em Onde os Fracos Não Têm Vez – que, no título original da obra do McCarthy, nossa sociedade vive tempos “onde os velhos não têm vez”).

Apesar de toda a violência (impressionante como após revisto várias vezes ainda hoje, e mesmo com a banalização atual da violência nos meios de comunicação, o filme consegue manter o choque em cada uma de suas cenas de execução), Robocop foi um dos maiores sucessos de bilheteria da década,  tornando-se cult e garantindo a verba pro caviar e whisky do tio Paulo pela década seguinte.

Porém, novamente o Robocop teve de enfrentar a fúria impiedosa de executivos inescrupulosos: duas continuações porcas foram encomendadas com o único objetivo de lucrar em cima do sucesso do primeiro. Particularmente, gosto das sequências (têm ótimos momentos de humor involuntário), mas meu gosto não é dos mais confiáveis às vezes. Recomendo que fiquem com esse aqui: um espetáculo visual, uma crítica social das mais elaboradas do cinema mainstream dos últimos vinte e tantos anos e, claro, diversão de primeira linha.

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Screenshots (
post com as melhores cenas do filme)

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5/5

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Ficha Técnica:

Robocop, O Policial do Futuro (Robocop) – EUA, 1987 – Direção: Paul Verhoeven – Elenco: Peter Weller, Nancy Allen, Daniel O’Herlihy, Ronny Cox, Kurtwood Smith, Miguel Ferrer, Robert DoQui, Ray Wise, Felton Perry, Paul McCrane, Jesse Goins