– por Luiz Carlos Freitas

A realidade surge no espetáculo, e o espetáculo no real. Esta alienação recíproca é a essência e o sustento da sociedade existente.”

– Guy Debord, A Sociedade do Espetáculo

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Após Cidadão Kane, talvez o maior filme a tratar do chamado Quarto Poder e o modo como influencia a sociedade, e grandes obras relativamente recentes a respeito do tema, como Todos os Homens do PresidenteRede de Intrigas, Síndrome da China, O Quarto Poder e vários outros, A Montanha dos Sete Abutres ainda consegue se manter em uma posição de grande destaque, extremamente atual em sua abordagem, mesmo em vias de completar 60 anos de lançado.

No filme, Kirk Douglas vive Charles Tatum, um jornalista fracassado que tentava a sorte como repórter em um pequeno jornal numa cidadezinha do Novo México, após perder dois empregos anteriormente por sua total falta de escrúpulos e desapego à ética profissional. Segundo ele, tudo era válido em nome de uma boa matéria. Um dia, enquanto parava para abastecer seu carro, se depara com um acidente numa antiga mina de carvão aonde um homem havia sido soterrado. Ansioso por uma boa matéria, ele contraria a todos os que alertavam do perigo do local e vai até onde o homem, Leo Minosa (Richard Benedict), estava preso, constatando que este poderia ser facilmente retirado de lá.

Tatum, no entanto, ao invés da desgraça de um homem, vê ali a maior oportunidade de sua vida. Ele fora o primeiro a fazer contato com Leo e era o único que sabia como chegar até ele. A situação estava sob seu controle e, dessa forma, toda a repercussão do caso refletiria diretamente sobre ele. Tendo isso em mente, ele diz que a estrutura da caverna estava seriamente abalada e que qualquer forma de resgate imediato colocaria Leo em grave situação de risco. Em poucas horas, não só a cidade, mas toda a região e, claro, a mídia estavam mobilizadas por causa de Leo. E no meio disso tudo, Tatum, o legítimo portador dos fatos. Ou melhor, “legitimado”.

Dessa forma, se Charles Tatum era, mais que um simples filho da mãe, a representação da falta de ética e princípios em seu meio, seu autoproclamado “faro inigualável para boas notícias” seria um estandarte a esse comportamento mórbido tão comum ao homem ante a situações terríveis como a que Leo se encontrava, exatamente de onde ele tirava sua força e motivação, como o próprio evidencia logo nos primeiros minutos de filme, num breve diálogo com seu jovem assistente assim que se depara com o acidente do mineiro:

“- Isso é uma mina de ouro. Um homem vale mais do que 84. Nunca te ensinaram isso?
– Ensinar-me o quê?
– A curiosidade dos homens. Pegue um jornal e leia sobre 84 ou 284 homens mortos num desastre, ou um milhão, como numa fome na China. Você lê, mas logo esquece, pois isso não fica contigo. Mas com um homem só é diferente. Se quer saber tudo sobre ele, como aconteceu, se está bem. Isso é a curiosidade humana, garoto.”

Contudo, apesar do desenvolvimento da trama se dar em torno da situação trágica em que Leo se encontra, sua desgraça é mero artifício para a construção de uma alegoria perfeita ao que, anos mais tarde, seria também uma das bases defendidas pela Internacional Situacionista, e tema do célebre livro de Guy Debord (talvez seu maior representante) “A Sociedade do Espetáculo”. O trabalho do escritor e  cineasta francês, entre outros pontos, observava a influência da mídia na vida das pessoas, estabelecendo uma certa relação de interdependência também entre o capital e a visão que a sociedade estabelecia da vida, pautando seus valores e conceitos em uma esquemática mercantilista, em que cultura e, de certo, informação, passam a ser “produtos”, e o “espetáculo” o meio recorrente a se “vender” isso.

Não estou colocando que Billy Wilder tenha algo a ver com os acontecimentos que eclodiram na França no famoso “Maio de 68”, apenas estabelecendo um paralelo entre alguns pontos semelhantes às duas obras, uma vez que não só o princípio da “Curiosidade Humana”, como enunciado por Tatum, mas o próprio sentido do “espetáculo” move os acontecimentos de A Montanha dos Sete Abutres, a começar já pelo título original, o “Grande Circo”, este iniciado por Tatum, mas só indo adiante por ter um público sempre ali, assíduo por mais e mais.

Camisas com o nome de Leo, bandeirinhas e até mesmo fotos do mineiro eram vendidas próximo à entrada da mina;  nesse espetáculo promovido por Tatum, o público que assiste e colabora é tão culpado quanto quem o dirige, pois fica evidente que eles precisam  desse espetáculo, que o alarde, o “circo”, tudo é indicativo de que algo realmente importante está acontecendo. A panorâmica da multidão descendo eufórica de um trem, como que indo mesmo a um show ou apresentação circense, é de uma força descomunal, ainda mais por ser facilmente identificada nos dias de hoje, em casos semelhantes (vide as multidões formadas para acompanhar o sequestro da jovem Eloá ou a reconstituição da morte da pequena Isabella Nardoni, só para ficar nos exemplos mais recentes e próximos a nós).

O filme foi um grande fracasso à época de lançamento, o que é completamente compreensível. Em plena década de 50, um filme sem heróis, onde o grande protagonista é um completo canalha e a representante da classe feminina (Jan Sterling, esposa de Leo) é uma víbora que conta os minutos para a morte do marido, por si só já impactaria o suficiente. Mas, ferino como sempre, Wilder vai além, e em tempos em que o Macartismo ainda mostrava sinais de sua força, aponta o dedo na cara da crítica e do público, e acaba saindo por “anti-americano e desrespeitoso”. Pura hipocrisia de um público que não queria admitir o papel que por vezes assumia: o de canalha filho da puta.

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5/5

A Montanha dos Sete Abutres (Ace in The Hole / A Big Carnival) – 1951, EUA – Diretor: Billy Wilder – Elenco: Kirk Douglas, Jan Sterling, Bob Arthur, Porter Hall, Frank Cade, Richard Benedict, Frank Jaquet

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