por Bernardo Brum

Um dos menos reverenciados da carreira cheia de êxitos gigantescos de Quentin Tarantino, Jackie Brown é considerado por muitos em primeira instância como mais uma das inúmeras homenagens de Tarantino aos filmes desprezados por Hollywood em décadas passadas que fizeram a sua cabeça – nesse caso, ao blaxploitation, gênero consolidado por produtoras independentes, drive-ins e grindhouses que consolidou a imagem das pessoas negras como máquinas sexuais, boas de briga e donas uma malandragem que desbanca meio mundo – de onde surgiu o clássico Shaft e o amalucado Sweet Swetback’s Badasssss Song.

A maior musa do cinema foi a estonteante Pam Grier, protagonista por direito dos clássicos Coffy e Foxy Brown. Em uma época que todo mundo queria dizer alguma coisa, ela foi um dos símbolos maiores de uma minoria que saiu do gueto para reclamar seus direitos. Tão importante quanto o soul/funk e o hip hop, tal filão, mesmo nos seus momentos mais absurdos e bizarros (há paródias versão blackpower de Drácula à O Poderoso Chefão), encontrou nas curvas da garota uma possibilidade de expressar problemas cotidianos e sociais ao seu modo, contar suas próprias histórias, com a sua própria boca, lente ou instrumento musical. O negro visto por ele mesmo, enfim.

Jackie Brown é não só a visão, mas a reflexão sobre essa intensidade artístico-cultural vinte anos depois. Por onde andariam James Brown, Jean-Michel Basquiat, Isaac Hayes… e Pam Grier, afinal de contas? Ninguém duvida da importância tamanha desses ícones que corriam por fora da cultura WASP para cravar seu nome na história da cultura pop, mas por onde andaria aquela boca carnuda, seios fartos e uma luxúria capaz de fazer Pamela Anderson parecer corista de igreja que tanto havia encantado Tarantino ainda na idade da bronha?

Pois é, onde chegamos: a América confusa dos anos noventa, onde a segregação não é mais tão absurda quanto era antigamente, mas em compensação, as relações intersubjetivas assumem uma curiosa complexidade. Negros mandando em brancos, loiras servindo de nada além de troféu de ostentação, policiais branquelos tendo que desenvolver uma malandragem que não lhes é característica para lidar com o tráfico intenso, e no meio de todos eles vaga Pam Grier, madura e soberana. Tudo passa pelo crivo da aeromoça metida em negócios escusos, que acaba por desenvolver um relacionamento com desses policiais. Se não é o que gente como Samuel Fuller pregava desde flmes como O Quimono Escarlate

Mas claro, o que o velho Sam não poderia prever é que essa mudança na estrutura das coisas – inclusive a nossa própria maneira de encarar esse novo tipo de protagonista (não necessariamente negro, mas simplesmente pertencente à uma minoria, fruto de condições marginais, mas que ainda ajuda a “velha roda”, por precinhos módicos, é claro – ao que parece é um mundo entregue à malandragem…)  a partir da década que viu de tudo – só poderia ser analisada por um rato de locadora. Não por acaso, os dois maiores diretores de estética pulp que se tem notícia.

Trocando em miúdos, o que Tarantino faz é simplesmente nos levar uma tour pelo gueto com Jackie Brown e partir daí para algo muito maior, experiente mas ainda vulnerável, cínico porém não menos humano, o cinema de “segundo escalão” e legado a salas vagabundas revisto por uma ótica que projeta a maturidade e a desnvoltura não só de x ou y, mas de toda uma leva de produtores, diretores e atores que brigaram pela liberdade de expressão projetando os maiores absurdos e transformando tudo isso em dramaturgia rápida e violenta e desaguaram no cinema contemporâneo aindo armados de fartura, malandragem e armados até os dentes, mas com uma consciência nova, juvenil e sempre explosiva. O tipo de metalinguagem que só Tarantino sabe retratar, afinal de contas. E claro, contando uma grande história de contemplação, putaria, envelhecimento e porradaria no meio do caminho.

4/5

Ficha técnica: Jackie Brown (Jackie Brown) – EUA, 1997. Dir.: Quentin Tarantino. Elenco: Robert De Niro, Bridget Fonda, Samuel L. Jackson, Michael Keaton, Lisa Gay Hamilton, Pam Grier, Quentin Tarantino, Robert Forster, Michael Bowen, Chris Tucker, Sid Haig, Ellis Williams

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