– por Luiz Carlos Freitas

Você é feliz? Mas, antes de responder que sim ou que não, você consegue definir ao certo o que é a felicidade?

Simplesmente Feliz, o último trabalho do aclamado diretor Mike Ligh, trata exatamente disso. Somos apresentados à Poppy, uma professora de primário completamente de bem com a vida, que acredita que ser feliz tem de ser a razão de existir de qualquer um e, portanto, jamais abre mão do largo sorriso no rosto e de um otimismo extremo em qualquer que seja a situação. Temos um exemplo disso logo no começo do filme, quando ela tem sua bicicleta roubada e, ao invés de se irritar e soltar umas três dúzias de palavrões (como a grande maioria das pessoas faria), apenas lamenta por não ter podido “se despedir” dela, e sai caminhando toda sorridente, como se nada tivesse acontecido.

O roubo da bicicleta foi o estímulo que a faltava para começar a fazer aulas de direção e tirar sua carteira de motorista. Ela passa a ter aulas com Scott (Eddie Marsan), um homem nervoso e altamente temperamental que acaba se apaixonando por Poppy. O problema é que seu jeito altamente “feliz”  deixa Scott mais nervoso e irritado à cada novo encontro dos dois, culminando num confrontamento quase trágico entre as diferentes formas de pensar dos dois (o grande clímax final do filme).

Apesar de aparentar ser um trabalho “à parte” na irretocável filmografia de Mike Leigh, Simplesmente Feliz carrega consigo a marca de seu diretor, conhecido por seus dramas pesados e de ritmo lento, focados nas atuações e, principalmente, numa complexa construção de personagens. Não há um clima sufocante como em Agora ou Nunca ou Garotas de Futuro, a angústia de Segredos e Mentiras, tampouco a visão de mundo como uma sarjeta de Nu, mas temos em Poppy a representação perfeita do arqueótipo dos personagens de Leigh: bem além da falta de controle sobre os rumos da própria vida, a incapacidade de escolha sobre o que realmente importa, do que e se precisamos.

Poppy é convicta de que sua vida só será completa se manter-se feliz em todas as ocasiões. Ela tem trinta anos, não casou, não tem filhos, sem uma reserva de dinheiro para emergências (paga as contas e gasta o que sobra com bebida e festas), não pensa no amanhã, apenas no presente. Eese é seu conceito de felicidade, viver o presente e só. Há muitos que pensam da mesma maneira, mas creio que a grande maioria ache isso um verdadeiro absurdo. Mas, voltando ao questionamento do começo deste texto, há como afirmar se isso é certo ou errado, se essa é realmente o meio mais válido de se procurar a felicidade?

Se você espera encontrar a resposta a esse questionamento aqui, bem, esqueça. Mike Leigh  não nos dá uma resposta e esse acaba sendo o grande trunfo de Simplesmente Feliz. Diferente do que se poderia esperar das tradicionais comédias românticas bobas e esquemáticas, o diretor não faz um julgamento de Poppy e sua postura, apenas nos mostra variantes das duas vertentes, desapego e controle, e nos desperta à reflexão por meio de contrapontos, como a irmã controladora de Poppy ou a emblemática figura  do mendigo (o desapego total seria uma insanidade?) sendo o maior deles, talvez, o do neurótico instrutor da auto-escola.

Uma das críticas mais decorrentes ao filme por parte do público foi quanto ao jeito de Poppy, seu otimismo excessivo era mais que insuportável. E se quem já a achava irritante logo no começo, certamente passou a odiá-la após Scott entrar em cena. À cada novo encontro para aulas, sua paciência ante o comportamento dela vai se esgotando mais rápido. Chega a ser torturante acompanhar os diálogos dos dois, o sofrimento dele com as piadinhas e tiradas de Poppy. Em determinado momento, boa parte dos expectadores devem ter se visto projetados na figura de Scott. Até mesmo os que mais simpatizavam com a postura da personagem principal se viram, pelo menos, complacentes com a agonia do professor, que acaba por culminar em seu maior acesso de raiva e, consequentemente, na agressão por meio da qual Scott externaliza tudo aquilo que apenas transparecia.

Mas Poppy agora poderia ser considerada vítima de si mesma? Colocá-la como a única culpada por levar Scott à perder o controle, seria legitimar um ato de violência e, de certo, tão injusto quanto afirmar que ele não tinha motivo (ele podia ser uma pessoa perturbada e desequilibrada, mas ela o levou a tal). Dessa forma, e novamente fugindo de uma análise superficial, podemos perceber que Mike Leigh mantém-se firme em seu propósito, ao não nos ditar o que é certo ou errado. Mais forte que isso, nos conduz a uma auto-análise: com quem gostaríamos de nos identificar em tela? De um lado, o racista, homofóbico, violento, impaciente, misógino e alguns outros adjetivos ainda menos admiráveis; do outro, a jovem que apenas queria ser feliz. Pode parecer um posicionamento piegas e nem mesmo tão imparcial, mas ainda assim completamente válido, afinal o cinema de Leigh sempre foi, acima de qualquer mero conceitual, humano. Seus personagens, assim como todos nós, se escondem por trás de suas máscaras. Alguns mentem, outros roubam, uns fogem e há os que tentam pôr fim à própria vida. Poppy ri. É sua máscara, seu subterfúgio. E isso fica evidenciado na cena final.

Assim como o título original, “Happy-Go-Lucky” (expressão equivalente ao nosso “deixa a vida me levar”), ela se vê divagando sobre a vida com uma amiga em um barco num lago. E, ao ser questionada sobre planos futuros e se ver sem perspectiva alguma, se mascara com um sorriso, solta os remos e deixa o bote flutuando a esmo. E essa sua falta de certeza nos remete a um outro conhecido jargão, que diz que “rir de tudo é desespero”. E até pode ser. Mas muito mais desesperador me parece sucumbir à certeza de que a felicidade nos dias de hoje é algo tão impraticável e  negar que, talvez, ser feliz seja mesmo simples assim.

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4/5

Simplesmente Feliz (Happy-Go-Lucky) – Inglaterra, 2009 – Diretor: Mike Leigh – Elenco: Sally Hawkins, Elliot Cowan, Alexis Zegerman, Andrea Riseborough, Sinead Matthews, Kate O’Flynn, Sarah Niles, Eddie Marsan, Joseph Kloska, Sylvestra Le Touzel, Anna Reynolds, Nonso Anozie, Trevor Cooper, Karina Fernandez, Philip Arditti

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