– por Guilherme Bakunin

Um carnaval delirante que dura 50 anos. Underground se inicia com a invasão nazista na Iugoslávia na década de 40 onde Kusturica, o responsável por essa façanha, mostra sem muito compromisso com o melodrama da guerra uma pequena cidade ser bombardeada por aviões alemões. Mais especificamente falando, nossa visão do bombardeio se dá aos olhos de Ivan, trabalhor gago do zoológico, que assiste todo o lugar cair por terra. Os animais do zoo escapam e é como se seus espíritos se libertassem de seus corpos e entrassem no corpo do cineasta e de todos os realizadores do filme, a irracionalidade toma conta das quase três horas desse épico.

A partir de então, as cenas se tornam caóticas. Homens saem às ruas para guerrear contra o exército nazista com pistolas, soldados de Hitler andam livremente pela cidade, os animais estão presentes em todos os cantos e o caos completo é finalmente instalado quando família e amigos de Marko e Blacky se trancafiam em um porão anti-bombas para montar uma resistência armanda contra a Alemanha (e depois contra os Aliados, e depois sabe-se lá contra quem), ao gás de muito álcool, sexo e música. Quando os trompetes da trilha sonora se materializam bem aos nossos olhos, e a música ambiente com a trilha somam-se, e a câmera continua planando, indecisa, mas interessada, você simplesmente sabe que Kusturica está no controle dessa anarquia fétida. Crianças, velhos, homens e mulheres dançam e festejam juntos a dádiva da vida, enquanto o mundo está com os olhos voltados para a guerra. A poética do cineasta está, neste ponto do filme, em mostrar a alegria de viver por trás de algo tão sujo quanto a guerra. E enquanto as pessoas no porão festejam, Marko vende armas para o mercado negro, agora que a segunda guerra acabou, enriquece e se torna um influente líder político de seu país, ao lado de Tito. As pessoas continuam com seus trompetes, sua comida e sua água no porão, e Marko instaura a mentira de que a guerra permanece e que a contribuição de seus amigos na fabricação de armas tem sido fundamental.

Ao bom e velho clima de guerra fria, como se o ar que existe no mundo fosse tóxico e envenenasse todas as pessoas, mesmo naquele porão as conspirações ganham espaço. Blacy planeja fugir do porão junto com seu filho para ajudar o exército soviético a combater a Alemanha. Logo após do casamento de seu filho, eles partem e o garoto se fascina por todas as coisas que encontra lá fora: o mar, a lua (ou o sol), os peixes, tudo é uma maravilha inédita, uma relação que encontrará respaudo mais de dez anos depois em um outro filme de guerra, Guerra ao Terror. Mesmo do lado de fora, os mesmos elementos que compuseram a vida de Blacky e Marko dentro do submundo anti-bombas compõe suas vidas ao ar livre: música, espontaneidade, surrealismo. A morte do filho de Blacky é mostrada num encontro sublime de sua esposa que o chama para um mundo subaquático maravilhoso, onde eles nadarão para sempre. Louco, Blacky combate helicópteros com rifles,sobe no poder e se torna general de um exército independente que combate na guerra civil da Iugoslávia; Marko se torna um senhor das armas junto da mais promíscua das atrizes russas, Natalija. Os dois não se encontrarão novamente em vida, e seus próprios estilos de vida serão os responsáveis por suas ruínas.

A esse ponto da narrativa de Underground, Kusturica já lançou pra fora de seu filme o cômico circence. As coisas se transferem para um plano sutilmente mais sério e trágico, agora na década de 90, onde paradoxalmente não existe de fato uma guerra acontecendo, mas interiormente cada personagem passa por um mau bocado pessoal. Não parece ser interesse do cineasta, no entando, exteriorizar esses sentimentos de suas personas. Antes, é muito mais provável que Kusturica insiriu elementos consideravelmente mais dramáticos a esse ponto do filme para lembrar o espectador de que, mesmo antes, tudo que acontece em Underground é muito trágico e muito sério. O circo, os trompetes, os whiskies, a alegria que cada um dos personagens tinham em relação a vida e as motivações que eles possuiam para continuar festejando mesmo com um mundo em guerra, tudo é trágico, triste, e nós fomos reféns de seus orgasmos, de suas imbecilidades. O caos instaurado pela guerra não é engraçado para Kusturica, mas é extremamente triste a indiferença que de um modo geral as pessoas tem com relação a ela. Um golpe desferido na face de todos os espectadores-reféns de Underground, mas que poucos sentem.

Contudo, nem tudo é tristeza. Os personagens de Kusturica perseveram e se reencontram no melhor momento do filme: um banquete posto sobre uma mesa no paraíso (?, ou seria na Iugoslávia?), mais uma vez eles festejam. Não há guerra agora, não há mundo lá fora. Blacky, Marko, Natalija, Ivan e os outros só possuem uns aos outros, e aquela pequeno pedaço de terra, que logo que desprende e vaga sem rumo no oceano, ao som de gritos infantis, trompetes, risadas. Mesmo após a morte, eles continuam, vagando sem rumo certo e aproveitando enquanto puderem uma vida; que não é das melhores nem das mais reais (afinal, eles estão mortos agora), mas é o que eles tem e nisso eles se agarram com todas as forças.

Underground é um espetáculo de três horas de duração, feito para se sentir  e ouvir. Toque Underground, sinta seus peronagens, ouça o rugir da grua levitando a câmera e perceba que é, sem a menor dúvida, um dos grandes filmes já feitos.

5/5

Ficha técnica: Underground – Mentiras de Guerra (Underground) – França, Iugoslávia, Alemanha, 1995. Dir.: Emir Kusturica. Elenco:  Miki Manojlovic, Lazar Ristovski, Mirjana Jokovic, Slavko Stimac, Ernst Stötzner, Srdjan Todorovic, Mirjana Karanovic, Milena Pavlovic, Erol Kadic, DaniloStojkovic, Bora Todorovic, Davod Dujmovic, Dr. Nele Karajlic, Branislav Lecic, Dragan Nikolic.

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