por Bernardo Brum

Reconhecido facilmente como uma das grandes obras do terror de todos os tempos, O Exorcista é um dos ápices de uma era única em termos de produção artístico-cultural transgressora e intensa, a década de setenta. E para quem é ligado não apenas nos filmes, mas também nas histórias da época, fica claro que poucos cineastas foram tão capazes de personificar e sintetizar por meio de suas obras esse espírito de toda uma época quanto William Friedkin que, alguns anos antes, chacoalhara as estruturas do cinema americano com a polícia imoral, corrupta, racista e fanática de Operação França. Obra que até a careta Academia se rendeu, preferindo esta obra ao clássico Laranja Mecânica, de Stanley Kubrick.

Nesse período de anti-caretice total, onde reinavam no alto escalão filmes abertamente desmitificadores e anti-sistema como Perdidos na Noite, O Poderoso Chefão, A Última Sessão de Cinema e Caminhos Perigosos e lá embaixo proliferavam os ultraviolentos, diversificados e setorizados filmes do filão explotation (época onde também comandou, em outros países, a mega estilização quase ritualística do assasinato nos giallos, a tosquice fervorosa da Boca do Lixo e a explosão de escolas européias que promoviam uma vanguarda deslavada em suas intenções de captar mudanças culturais), Friedkin levou muito além a sutil metáfora da inclusão do demônio na sociedade moderna presente em O Bebê de Rosemary, de Roman Polanski e fez O Exorcista, trazendo à tona, de forma nem um pouco sutil e totalmente explícita, a abordagem de temas escandalosos que, sabe-se bem o motivo, era reprimida há décadas pela sociedade que tomou para si o cetro de “dona do planeta”. Escatológico, sangrento, hiperdramático e obsceno, é um filme que alia tanto a articulação de um cineasta sabidamente autoral, quanto a inexistência de auto-censura e a coragem “maldita” que fazia a festa nos covis dos cinemas grindhouse.

Olhando hoje, muitas cenas parecem uma provocação quase infantil por parte do cineasta a uma sociedade careta e quadrada;  porém nada tem de inocente e vai muito além. Cada palavra “suja” e provocação gratuita são valorizadas ao extremo pelo roteiro que, não obstante a isso, conjuga anti-heróis amargurados que parecem ter pulado de uma história de folhetim policial ou de um filme noir perdido em algum cinema falido – encarnada no Padre Merrin, que olhou o abismo por tanto tempo que liberou seu mal contra a terra; a amargura do personagem interpretado por Max Von Sydow não é nada ao percebermos que para um homem santo (absolutamente necessário à profissão, afinal ele expulsa demônios, ora bolas!), é surpreendemente “carnal” ou “secular”, conhecendo cada artimanha do demônio e vez por outra cedendo às suas tentações, como delineia bem a fala de quando ele aceita uma bebida alcoólica: os médicos dizem que ele não pode, mas graças a Deus, ele não resiste a tentação. No outro extremo, um indivíduo totalmente complexado, medíocre e culpado, o Padre Karras, homem de fé abalável que vê seu mundo ruir e aposta todas as fichas de sua medíocre existência no combate contra o demônio Pazuzu, que se apossou do corpo de uma pequena garota americana, Regan.

Ah, Regan. E sua mãe, a estrela de cinema Chris. Pessoas que você vê todo dia, com uma casa própria, com seus próprios problemas (como o divórcio, que revela-se tão perturbador tanto para a mãe quanto para a filha)… e que vê tudo desabrochar, de uma vez só, quando a casa é invadida por uma presença sobrenatural inaceitável. Afinal, como diz a nota de dólar americana, In God We Trust, em Deus Nós Acreditamos. O inferno, como diria Sartre, são os outros: cada um vê-se metido naquele clímax absurdo e quase ilógico por não ser dono supremo de sua realidade: a mãe é cercada pelo distanciamento do ex-marido, as necessidades profissionais que a obrigam a distanciar-se de sua filha, e esta, por conseguinte, vê a pedra angular da sua inclusão como indivíduo na sociedade ser retirada: seus pais são separados e distantes, e ele não tem voz para que possa ser ouvida. Karras, o padre mais jovem, reza, joga, pratica esportes, enche a cara por não poder dedicar-se unicamente à sua causa – afinal, sente a responsabilidade e a culpa pela mãe doente. Ainda que admita a presença das forças da mitologia cristã atuando sobre a Terra, Friedkin faz isso de forma distante, quase atéia, ao concentrar todo o peso psicológico da obra nos indivíduos mortais e desesperados.

Afora isso, o espetáculo estético de Friedkin, regado a sangue, vômito e fumaça, corrobora para, junto com a dramaturgia, criar uma das atmosferas mais insuportáveis do cinema. O fedor da culpa de Karras, Merrin e Chris espalham-se por todo o filme. Masturbação com um crucifixo, descer as escadas como uma bizarra aranha humana, cabeças girando em cento e oitenta graus: Regan está crescendo e manifestando culpas familiares, religiosas e sociais no seu estado de possuída pelo demônio. As demonstrações gratuitas de poder de Pazuzu são intercaladas, o tempo todo, pelas angústias de protagonistas viciados em culpa. O demônio, então, é nada mais que mero reflexo que esses indíviduos espelham nas próximas gerações. O martírio final nada mais é que compensação, uma explosão de culpa; vê-se o quanto Karras aguenta e remói antes de, finalmente explodir. A influência ainda repercurte, e não é um erro dizer que filmes como O Hospedeiro seguem a mesma tônica, ainda que trocando de antagonista. Ironicamente, o diabo está com os detalhes: quando possuído, Karras não vê outra condição a não ser a, logo após oferecer seu corpo como receptáculo ao invés da garota, cometer suicídio, o que para o cristianismo, configura-se como pecado. A redenção é momentânea, já que o padre opta por pôr um ponto final na sua existência a combater o demônio interior. Ele renega sua fé para morrer como simples humano.

Clássico orgulhosamente polêmico, O Exorcista mexe com o que não deve, cutuca a onça com vara curta, promove absurdo atrás de absurdo; e também dramatiza e desconstrói o indivíduo moderno, tão incrédulo como dependente e tão solitário e sozinho no meio de megalópoles. Se Polanski sugeriu, incitou e detectou, Friedkin apontou sua câmera suja e assustadora para a família americana para oferecer um não-consentido tapa na cara; daqueles reveladores. Não é absurdo dizer que é a abordagem definitiva do demônio na Sétima Arte; tampouco admitir que, poucas vezes após esse filme, conseguiria-se abordar temas considerados tabus com tamanha excelência. E o que é melhor ainda, de uma maneira completamente filha da puta.

5/5

Ficha técnica: O Exorcista (The Exorcist) – 1973, EUA. Dir.: William Friedkin. Elenco: Ellen Burstyn, Max von Sydow, Lee J. Cobb, Kitty Winn, Jack MacGowran, Jason Miller, Linda Blair

Anúncios