– por Guilherme Bakunin

Quando Christine, mais ou menos aos 50 minutos de filme, corta seu próprio cabelo, a impressão é que muito mais do que fios rebeldes estão saindo das costas da personagem. Na verdade, o fardo de carregar o filme nas costas parece pesar muito nos ombros dela e de seu namorado Gilles. Eles são sem dúvida personagens interessantes: Gilles é um adolescente de classe média alta que por ser rebelde prefere estudar em um colégio público, onde ele pode caminhar pela vida de colegial sem rédeas fortes; Christine é sua namorada, tem problemas com seu pai e com seu padrasto e anda muito alheia a praticamente qualquer coisa na sua vida. Nem mesmo o namoro parece dispertar os dois jovens a tomar qualquer tipo de atitude. Eles estão paralizados pela inércia da juventude, bebendo, fumando, roubando.

Assayas revela dois jovens alheios a sua própria existência, com problemas e personalidades bem particulares. Não é como se Christine e Gilles representassem alguma camada, mas representam eles mesmos, pessoalmente autodestrutivos. Eles não conversam e não vivem. Passam os dias falando sobre problemas e tragédias deles mesmos, enquanto roubam discos dos Stones e Deep Purple, citando Michael Davidson, em plena França dos anos 70. Ora, não me parece coincidência que os jovens percam tanta a sede pela vida enquanto tudo a sua volta está cativo às prisões do império cultural americano. Não é uma crítica direta aos Estados Unidos, ao que me parece, mas uma observação pertinente aos perigos da perda de identidade.

O problemático em relação ao filme é que carregar os filmes nas costas parece demais para o casal. Até os 40 minutos, a história não se move para nenhum lugar específico. Acumula ações e acontecimentos que não são absorvidos pelos personagens, mas ignorados, mais ou menos como todo o resto. Quando Gilles inicia seu grito beatnik na floresta, a paisagem toma o seu lugar. O que importa é a voz de Gilles no meio das árvores e da névoa. E finalmente chega-se a festa, um exemplo de até onde a experiência de choque e de sentimento do cinema pode chegar. Tudo ali é particular. Enquanto os jovens tentam manter a fogueira acesa, o tempo inexoravelmente passa e ela se apaga. No período de tempo entre esses dois eventos, são vidas sendo narradas em poucos frames e maços de cigarros. Minha vida também está ali, comigo, sob a forma da experiência que eu absorvo das canções de rock de Alice Cooper e Guns ‘n Roses que falam por aqueles preciosos minutos. E a câmera flutua, como um espírito sobre as águas, para constatar todas essas coisas. Beijos, bebidas, danças, juventude, vaidade. Tudo ali vai passar, exceto as marcas daquela festa na memória de cada um.

Ao final, a água fria faz apagar a fogueira da juventude, Christine e Gilles fogem sem destino certo de toda a loucura da sociedade setentista. Quando estão só os dois, a fumaça dos cigarros falam, eles não. Eles dormem, se aquecem, se congelam, fazem amor. A água fria faz Christine perceber que seu lugar não é ali. Se transforma em espírito e espairece sobre o gelo dos arredores de Paris. A Gilles resta o bilhete de despedida, que surgiu por mágica, e a absoluta inércia caracterizada mais pela falta de rumo e de vontade de ir pra qualquer lugar do que pela preguiça.

3/5

Ficha técnica: Água Fria (L’eau Froide) – França, 1994. Dir.: Olivier Assayas. Elenco: Virginie Ledoyen, Cyprien Fouquet, Lászlo Szabó, Jean-Pierre Darroussin, Dominique Faysse, Smail Mekki, Jackie Berroyer.

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