por Bernardo Brum

O mundo criado por Samuel Fuller em seus filmes é menos uma tentativa de documentação dos conflitos de uma época e mais uma tentativa de, por meio do circuito B de produção sem muitos grandes nomes,  expressar as próprias questões e experiências e tentar compartilhar com o resto das pessoas a manera que o autor enxergava a máquina funcionando.

Dito isto, não é de se estranhar que em praticamente todos os seus filmes e, especialmente, em seus filmes noir, o diretor não enfoque anti-heróis trágicos ou mulheres fatais: seu alvo é a camada baixa da sociedade, com todas as prostitutas, cafetões, traficantes, dedos-duros, traíras, costas quentes, fracassados, bandidos de baixo escalão, policiais rasos, pouco importantes e à beira da corrupção… Um mundo onde dignidade não é nada mais do que uma utopia e a esperança de dias melhores ou de ter a oportunidade de recomeçar simplesmente não existe: o “american way of life” é apenas uma fotografia de um anúncio de margarina. O mundo está corrupto e sujo demais e quem nasce e se criou por baixo, e é melhor se acostumar.

A escuridão que Fuller imprime na fotografia confunde-se com seus próprios personagens: pessoas que o tempo todo tentarão fazer seu lado valer, mas infelizmente não conseguirão. A prostituta de O Beijo Amargo não conseguirá fazer com que a cidade para onde se mudou seja convencida de que ela é, sim, uma boa pessoa. O pequeno desordeiro vingativo de A Lei dos Marginais encontra-se praticamente sozinho contra uma torre interminável de grandes chefões. Em Anjo do Mal, não é diferente: Skip McCoy vê o jogo virar contra ele quando o objeto do seu roubo, um documento com segredos importantes do governo, põe sua vida em risco.

Da malandragem cínica típica de quem se armou contra as vilezas de um mundo cruel e impiedoso, o batedor de carteiras logo se verá sozinho quando, uma a uma, todas as pessoas com quem ele pode contar caem vítimas da falta de escrúpulos e excesso de ganância dos capangas  de poderosos contra qual Skip nada pode fazer a não ser se entregar ou levar uma vida de fuga eterna. Dois caminhos que levam ao mesmo destino: um suicídio estúpido. Por estar no lugar errado e na hora errada, o peixe pequeno que passa despercebido e leva a vida mais ou menos tranquilamente torna-se inimigo público número um. Argumento óbvio de Samuel Fuller: louca como nossa sociedade está, todos estão vulneráveis, todos estão em perigo, basta não ter sorte. Idéia tão simples quanto aterrorizante.

Mas Fuller, ainda bem, estava longe de se afundar no pessimismo gratuito. Entre se apegar a um discurso fácil e à corrupção, Skip prefere a utopia da dignidade e da espera por dias melhores. Mesmo que eles nunca cheguem. Há algo mais humano que ir contra o establishment e ceder à essa tendência irresistível ao errado – de dar ouvidos ao que nós achamos adequado, mesmo sabendo que, inevitavelmente, seremos esmagados pela roda?

A câmera de Samuel Fuller reforça, em cada viela escura, em cada diálogo esperto, em cada final trágico, todo esse paradoxo e dicotomia desse mundo que resolveu estilizar no cinza, na dramaturgia e na montagem – e talvez só aí conseguir questionar a verdade por trás dele.

4/5

Ficha técnica: Anjo do Mal (Pickup On South Street) – EUA, 1953. Dir.: Samuel Fuller. Elenco: Richard Widmark, Thelma Ritter, Richard Kiley, Jean Peters, Murvyn Vye, Willis Bouchey

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