– por Luiz Carlos Freitas

De uma forma ou de outra, o Oscar sempre foi referência no meio cinéfilo, tanto por seus admiradores quanto pelos detratores. Até mesmo aos mais ‘neutros’ (meu caso) fica impossível se manter completamente indiferente quando a discussão envolve as supostas injustiças da Academia. Ao longo de seu quase século de premiação, são várias as queixas (grande maioria referentes à premiação principal), desde grandes filmes que nem sequer foram indicadas, como 2001: Uma Odisséia no Espaço, aos vários casos aonde os tido comumente como melhores não foram agraciados com a estatueta, como Apocalypse Now, Uma Rua Chamada Pecado, Os Bons Companheiros, Touro Indomável, O Exorcista e vários outros, sendo talvez, após a derrota de Cidadão Kane para Como Era Verde o Meu Vale (que, apesar da polêmica feita pelos mais afoitos, nem pode ser considerada uma injustiça), a vitória de Rocky: Um Lutador a mais condenada. O drama dirigido por John G. Avildsen desbancou Taxi Driver, de Martin Scorsese (considerado por boa parte da crítica especializada como um dos maiores filmes americanos já feitos).

Interpretando quase que a si mesmo, Sylvester Stallone vive o personagem-título, um lutador medíocre que deve até as partes íntimas e sobrevive às custas de pequenos serviços braçais e que se vê diante da oportunidade de mudar de vida quando recebe o convite do boxeador Apollo Creed (Carl Weathers) para uma disputa à parte de campeonatos valendo o seu título de Campeão Mundial. Para Apollo, era apenas mais uma jogada de marketing; Para Rocky, a chance de uma vida digna. Bastava apenas manter-se alguns rounds de pé e receber seu pagamento (além, é claro, de ter seu nome divulgado e poder, quem sabe, arranjar um emprego de verdade). Mas esse era um desafio certo de derrota. Assim, Rocky pede a ajuda de seu antigo treinador, Mickey (Burgees Meredith), para ajudá-lo em sua preparação.

O filme foi um sucesso estrondoso, gerando uma franquia com outros cinco longas (que, à exceção do penúltimo, foram igualmente bem sucedidos comercialmente). Contudo, sua vitória na categoria principal naquele ano, ao passo que trouxe notado prestígio à obra (e principalmente a Stallone, que fora lançado definitivamente ao estrelato), bastou para despertar a fúria dos que não concordaram com a decisão da Academia, atraindo até hoje críticas excessivamente negativas, boa parte delas sem nenhuma justificativa que vá além do discurso clichê de “não mereceu o prêmio que ganhou”, entre outras comparações desnecessárias com os demais indicados (além de Taxi Driver, Todos os Homens do Presidente e Rede de Intrigas são tomados constantemente como referência).

A bem da verdade, Rocky é, sim, bem inferior aos seus concorrentes na disputa à estatueta,  mas isso não diminui em nada seus méritos, uma vez que o filme é uma obra independente em seu desenvolvimento, estando relacionado aos outros apenas pela disputa ao mesmo prêmio e, livre de comparativos, cumpre perfeitamente sua proposta. Boa parte da força do filme deve-se ao roteiro (escrito pelo próprio Stallone), bastante simples, porém eficiente ao ponto de gerar uma empatia considerável com o personagem por parte do público. E, talvez, tenha sido essa aproximação a grande responsável pela premiação de Melhor Filme. Mas, antes de tudo, devemos avaliar o contexto histórico à época de lançamento do filme.

Quatro anos antes, explodira o escândalo de Watergate, com o arrombamento da sede do Comitê do Partido Democrata meses antes das eleições. Nas investigações, foi constatado o envolvimento do presidente Nixon que, dois anos após, abandona seu cargo na Casa Branca. Um escândalo que manchou a imagem da América. Nesse mesmo período, os EUA amargavam um grande desastre chamado ‘Vietnã’. O tão famoso ‘Orgulho Americano’ estava aos pedaços. Os estadunidenses sentiam vergonha de seu governo e de sua nacionalidade e nada parecia reverter aquilo. Algo precisava ser feito para dar a ‘injeção de ânimo’ que aquele povo precisava. Além do que, o Oscar nunca foi tomado por avaliar necessariamente a qualidade artística de seus indicados, quem foi ou não o melhor naquele ano, mas muito mais por uma extensa rede de puro lobby. Os votantes da Academia, críticos e profissionais do meio cinematográfico, baseavam suas escolhas no mercado, na receptividade que determinadas obras poderiam vir a ter ou não e os efeitos de ter seu nome relacionado a elas. Assim, antes os demais indicados, que abordavam a sujeira e baixeza da sociedade americana (Todos os Homens do Presidente trata justamente do Caso Watergate), Rocky pareceu ser a escolha mais acertada.

As cenas de treinamento árduo e ostensivo eram mostradas paralelamente a seus dramas pessoais e aos efeitos que aquela disputa tem em sua vida e na de todos ao seu redor. E são essas tramas paralelas que ganham o filme e o apreço do espectador, que via nos personagens imagens de si mesmos. Entre um soco e outro, vemos o desenrolar do romance entre Rocky e a tímida Adrian (Talia Shire), seus conflitos com o amigo Paulie (Burt Young) que, assim como ele, era mais uma vítima da falácia social daquele sistema. Mas o essencial nos remete de volta ao treinamento. Aquele homem simples que treinava com vigor, mesmo estando de estômago vazio, com as mãos ensangüentadas dando socos em uma peça de carne no frigorífico por não ter onde treinar, era um perfeito retrato do cidadão americano de classe baixa àqueles tempos.

Rocky Balboa se mostrava feito com um pouco de cada americano revoltado e envergonhado que, além dos parentes e amigos perdidos em uma guerra tola e dos escândalos do alto escalão do Governo, tinha suas humilhações diárias em uma vida simples que todo o resto da sociedade tentava fazer pequena, tomando-as como ‘causas perdidas’. Sly encarnava um novo tipo de herói, sem os super poderes de um Superman ou o charme e a inteligência de um James Bond: um homem simples, de carne e osso (e que mal sabia falar), que não pretendia sair por aí eliminando bandidos com as próprias mãos ou derrubar toda uma bancada de políticos corruptos, apenas provar a si mesmo e (se possível) aos outros que podia melhorar de vida e proporcionar isso à sua mulher.

Comparações à parte, da direção segura de Avildsen (que, fora esse e Karatê Kid – clássico das reprises na TV aberta -, não fez mais nada que mereça alguma menção) às grandes atuações (Talia Shire, Burt Young e Burgess Meredith estão fantásticos) e a trilha sonora assinada por Bill Conti, sempre lembrada na maioria das apresentações de boxe desde então (e que embala a sequência do treinamento de Rocky e a subida na escadaria da Biblioteca da Filadélfia, uma das cenas mais antológicas do cinema),  Rocky: Um Lutador consegue aliar perfeitamente uma plena eficiência cinematográfico a um grande valor humano. E isso, dentro da Sétima Arte,  é algo que não deveria ser ignorado.

“Não há nada que você não possa fazer. Se o gongo ainda não soou,
então a luta ainda não acabou. Agora vá lá e vença!”

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4/5

Rocky – Um Lutador (Rocky) – 1976, EUA – Direção: John G. Avildsen – Elenco: Sylvester Stallone, Talia Shire, Burt Young, Carl Weathers, Burgess Meredith, Thayer David, Jimmy Gambina,  Joe Spinell

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