– por Luiz Carlos Freitas

Um filme de Brian De Palma aonde o mais comentado é o Tom Cruise … É, definitivamente tem algo muito errado aí.

Lançado em 1996, Missão: Impossível, adaptação cinematográfica de uma das mais famosas séries da TV americana, marca a estréia do astro como produtor. Cruise (que desembolsou algo em torno de 70 milhões para viabilizar o projeto) pode se considerar bem satisfeito. A franquia foi um tremendo sucesso de bilheteria (até mesmo o terceiro, que apurou menos que os anteriores, passou longe de deixar prejuízo). Contando com nomes de peso, desde os roteiristas, David Koepp (de O Mundo Perdido: Jurassic Park – e que já havia trabalhado com De Palma em Pagamento Final) e Robert Towne (do irretocável Chinatown, de Roman Polanski), ao elenco, Brian De Palma foi a cereja do bolo. Ou pelo menos deveria ser.

O grande problema de Missão: Impossível é esse choque autor-produtor.  De um lado, Brian De Palma, um cineasta autoral até a veia, mesmo em seus projetos mais comerciais e que, talvez por isso, amargou uma série de fracassos de bilheteria e crítica ao longo de sua carreira. Do outro, Tom Cruise e suas promissórias de quase 70 milhões que não iriam deixá-lo livre para  dar carta branca para o De Palma fazer o que bem entendesse com o projeto. Além do que, um fracasso não representaria apenas um prejuízo momentâneo, mas a longo prazo, uma vez que poderia representar a perda de uma provável franquia de sucesso (já que a série conta com fãs que a veneram há décadas).

Sendo assim, optando por algo mais palatável ao grande público, foi-se construído um roteiro bem mais simples do que se poderia esperar de um mestre como Brian De Palma. Na trama, Cruise vive Ethan Hunt, membro do grupo ‘Missão Impossível’, formado pelos melhores agentes secretos disponíveis ao governo. Durante uma operação secreta, todos são eliminados, um a um, e a culpa cai sobre Ethan, uma vez que ele foi o único a não ser atacado e, pelas condições das mortes, era provável que o assassino fosse alguém que conhecesse a operação por dentro. Daí, ele vai correr sozinho para provar a todos a sua inocência.

Trama bem simples e rasa. Não há uma mínima preocupação em se aprofundar as personagens. Eles simplesmente estão ali para dar seguimento aos fatos, nada além. Se por um lado isso não permite muita empatia com o público, por outro é o cabimento que o diretor (que nunca foi muito de se aprofundar nesse aspecto) precisava para exercitar seu total domínio da técnica. Uma trama de mistério que se desenrola de modo linear e, à partir de determinado ponto, começa a disparar reviravoltas para todos os lados. Traições, mentiras, agentes-duplos (e triplos) e toda uma sorte de surpresas que, próximo ao fim, chegam a beirar o surreal. E no meio disso tudo, além da belíssima fotografia de Stephen H. Burum (parceiro de De Palma desde Dublê de Corpo) e da nova versão por Danny Elfman da clássica trilha do seriado, as famosas set pieces do diretor (a primeira conversa de Ethan e o agente no restaurante, com os enquadramentos em seus rostos de baixo para cima, alternando e se aproximando num jogo de tensão extremo bem semelhante ao do confronto final entre vítima e sequestrador em Síndrome de Caim).

Claro, o filme tem muitos defeitos. Como já citado, o roteiro não nos permite uma maior aproximação das personagens, não há identificação com elas. Diferente da série, onde protagonistas e vilões constam atualmente entre os mais memoráveis da história da televisão americana, Ethan Hunt e companhia são esquecidos logo após o término da projeção. Talvez o único lembrado seja mesmo o protagonista, mas muito mais (óbvio) por causa de seu ator. Lamentável, tanto pelo seriado no qual o filme foi baseado quanto pelo próprio diretor, criador de tantos personagens inesquecíveis, como Tony Montana (Scarface), Carlitos (O Pagamento Final), Malone e Al Capone (Os Intocáveis), a personagem título de Carrie – A Estranha, entre outros.

Mas se as personagens não marcam, as cenas memoráveis são várias, e em cada uma delas De Palma imprime a sua marca. Ethan Hunt pode não ser tão referenciado, mas jamais esqueceremos a famosa cena da invasão ao computador central da agência (que já entrou para o hall das mais memoráveis  de sua filmografia – e do cinema) ou a impressionante sequência de luta final no trem e seu desfecho num túnel. De Palma nos mostra que ainda não seria dessa vez que ele deixaria algo o impedir de estraçalhar os nossos nervos como ele bem sabe fazer (dos mandos e desmandos da produção às leis da física, ele parecia não ligar muito) e que, mesmo com tantos defeitos, Missão: Impossível ainda é um entretenimento de primeira que, infelizmente, carrega a injusta marca de seu diretor: subestimado e incompreendido.

4/5

Ficha técnica: Missão: Impossível (Mission: Impossible) – EUA, 1996 – Diretor: Brian De Palma – Elenco: Tom Cruise, Jon Voight, Emmanuelle Béart, Henry Czerny, Jean Reno, Ving Rhames, Kristin Scott-Thomas, Vanessa Redgrave, Dale Dye, Marcel Iures, Ion Caramitru, Ingeborga Dapkunaite, Valentina Yakunina, Marek Vasut, Nathan Osgood

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