– por Guilherme Bakunin

Se alguém te perguntar o que é poesia no cinema, você pode responder com base nesse filme aqui. Dificilmente a gente vai encontrar um noir tão triste, belo e significativo quanto Seu Último Refúgio. Bogart, o eterno anti herói da negra américa, encarna Roy Earle, um gângster famoso recém liberto da prisão. Sem muita perspectiva, Earl aceita um trabalho de roubo e lá conhece duas mulheres, mas se apaixona por apenas uma delas.

A sensibilidade aqui é latente e Walsh brinca com o conceito de liberdade o todo tempo. Afinal, Earl ainda não é livre pois é obrigado pelas circunstâncias a aceitar um trabalho perigoso que vai contra a sua vontade e que só poderia terminar em tragédia. Todos os personagens, inclusive, estão de forma ou outra presos em relação a qualquer coisa, seja à conformidade de submeter-se aos descuidados de um jovem alcoólatra ou pela tensão sexual carregada, ou um fardo ao longo de muitos anos, em razão de um pé aleijado. Por issoo filme possui seu contorno claustrofóbico, e os personagens existem sempre à margem da legalidade. A família tem por trás das frestas do muro da felicidade americana cicatrizes incuráveis, tormentos, intrigas, de forma que basta um leve sopro dos maus ventos para que toda a fundação ceda. Roy é este sopro, desestrutura aquele lar e depois parte, para tentar fazer, pela primeira vez na vida, alguma coisa além de destruir. Marie e Roy estão, portanto, desimpedidos. Não há valentões e não há casos amorosos, apenas os dois e seu cão, conformados em partir para algum lugar e tentar sentir o gosto de uma vida tranquila. Algo naturalmente dá errado no plano do casal, e mais uma vez eles são obrigados a ficarem à margem da sociedade, fugindo e se escondendo, com uma ambientação claustrofóbica de Walsh que fecha, a cada cena, o certo para o casal. Mais ventos uivantes e assustadores trazem o temor para Roy e Marie e seu relacionamento é posto em cheque.

Um último recurso, um último refúgio, Roy foge da polícia e depois de uma tarde de tensão, encontra a liberdade. Não há mais Velmas nem Maries, nem polícia, nem gângsters, nem dinheiro e problemas. Roy está morto, acabado e pela primeira vez no filme é capaz de respirar aliviado, liberto de qualquer opressão da vida, de qualquer fardo social. Talvez Walsh realmente esteja certo e a única solução para todos os problemas da vida é não vivê-la.

4/5

Ficha técnica: Seu Último Refúgio (High Sierra) – EUA, 1941. Dir.: Raoul Walsh. Elenco: Ida Lupino, Humphrey Bogart, Alan Curtis, Arthur Kennedy, Joan Leslie, Henry Hull, Henry Travers, Jerome Cowan, Minna Gombell, Barton MacLane.

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