por Bernardo Brum

Curioso perceber que, para maioria esmagadora dos grandes cineastas americanos dos anos setenta, o filtro era o cinema. Com devidas exceções, era uma geração que não explorava os conceitos de romancistas, artistas plásticos e dramaturgos, tampouco construíam o olhar sobre o mundo que criavam através deles. Assim, Scorsese provavelmente nunca pensou em um quadro de algum pintor ou algum conto – ele pensou nos planos de Rastros de Ódio e na narrativa anti-convencional dos filmes do Godard. Spielberg, provavelmente, pouco se lixa para literatura clássica – a beleza reside nos filmes morais e otimistas de Frank Capra.

Brian De Palma não foge à regra – e nem quer, principalmente porque o cara arranjou Hitchcock como filtro. Se em Trágica Obsessão ele conseguiu fazer de Um Corpo que Cai a coisa mais lindamente doentia já filmada, ao reler Psicose – com direito à cena do banheiro e cena explicativa na delegacia – ele fez Vestida Para Matar, obra filmada em puro surto esquizofrênico e êxtase alucinatório. E tira um sarro do espectador o tempo todo – troca a moça aproveitadora por uma coroa desesperada pra dar, a garota frágil perseguida por uma protistuta desbocada, o machão solidário por um nerd vingativo, o detetive lesma por um policial chicano irritante, troca o complexo de Édipo por transsexualismo, por aí vai. Também eleva ao máximo suas câmeras subjetivas, seus campos e contracampos claustrofóbicos, travellings exagerados, dois planos simultâneos, longas sequências sem diálogo nenhum, sonhos jogados a rodo e ao bel-prazer na trama, closes em seios (nham nham) e tudo o que só o cinema do cara pode oferecer.

As últimas sequências só comprovam como essa coisa de cinema pelo cinema funciona. Perturbado, exagerado, escancarado e psicótico assim como seu autor. Cinema no volume máximo, de dar gosto.

4/5

Ficha técnica: Vestida Para Matar (Dressed To Kill) – EUA, 1980. Dir.: Brian De Palma. Elenco: Michael Caine, Angie Dickinson, David Margulies, Nancy Allen, Dennis Franz, Keith Gordon

Anúncios