– Luiz Carlos Freitas

Para fugir ao Nazismo, Fritz Lang teve de emigrar para os EUA, mudando sua vida, seus costumes e, consequentemente, seu cinema. Para alguns, o declínio; para outros, a maturidade criativa. Prefiro não me ater a nenhum dos dois extremos. Seu cinema continuou grande, talvez sem o mesmo impacto e brilhantismo de suas maiores obras Expressionistas, mas ainda assim tão ácido, sarcástico e crítico quanto.

Só Se Vive Uma Vez, seu segundo filme em território yankee, conta a história de Eddie Taylor (Henry Fonda), um ex-membro de gangue que já fora preso três vezes, todas por crimes “menores” e que está saindo em liberdade. Porém, segundo a lei estadual vigente à época, a sua quarta condenação, independente do motivo, representaria um passe imediato para a cadeira  elétrica. Disposto a se reabilitar e levar uma vida honesta, pede ajuda à sua noiva, Joan Graham (Sylvia Sidney), jovem secretária do Defensor Público Stephen Whitney (Barton MacLane), que o arranja um emprego como motorista e tenta mantê-lo a todo custo longe do crime.

Dividido em três atos distintos, acompanhamos a evolução do casal e sua relação de anacronismo progressivo com a sociedade, iniciando com a adaptação, seguindo a rejeição e, finalizando, a total negação do meio. No começo somos apresentados aos personagens principais. O clima é leve, agradável, com direito a algumas tiradas cômicas, como o jogo de baseball na cadeia, e juras de amor trocadas em um jardim, em meio às flores; logo vem o preconceito, os olhares tortos ao ex-presidiário, depois um crime e, por conseguinte, a condenação à morte por uma culpa presumida, culminando na revolta completa contra o meio, com a fuga da prisão e o desfecho trágico (e  bem previsível) do casal.

É notado o esforço de Lang em se adaptar e assimilar esse cinema que o era novo e o quanto isso impacta em sua obra. Ele estava na América e fazendo filmes com e, de certo modo, para americanos. Eram tempos difíceis e o reflexo disso estava em seu anti-herói, mostrado como mais uma vítima da grande Depressão e do sistema que não dá chances, a exemplo do chefe de Eddie, que o demite logo no primeiro dia por um mero atraso de uma hora e meia, além de se mostrar completamente irredutível, fazendo pouco de sua situação, esfregando na cara a condição de “ex-presidiário”, zombando e caçoando dele. Extremamente caricato, na mesma medida temos o padre Dolan (William Gargan), amigo do casal que persiste até o fim para que Eddie preserve sua integridade, chegando a clamar em favor daquele que o desferiu um tiro fatal.

O roteiro, diga-se de passagem, é bem falho. Boa parte da força do longa está mesmo em sua condução. Lang não perde ritmo, talvez ajudado pela curta duração (algo em torno de 80 minutos), que não deixa a correria do roteiro ficar entediante. Os traços remanescentes do Expressionismo se fazem presentes em algumas cenas, como de Eddie em sua ‘gaiola’ aguardando a execução e os guardas na guarita de segurança vistos por baixo, além de todo o clima sombrio e nebuloso do pátio da prisão na hora da fuga, a melhor cena do filme, ao lado da primorosa sequência da explosão das bombas no assalto ao banco.

Esquemático, se estendendo mais do que o necessário em apresentações (como as cenas do casal no jardim, os amigos na cadeia e o apelo insistente – irritante, eu diria – do verdureiro “assaltado” logo no início) e se aprofundando pouco (e rápido) em questões importantes, principalmente no terceiro ato, com a descoberta do crime, o perdão ao assassino e o casal pacífico virando “Bonnie e Clyde” e entrando para a lista dos mais procurados da América em questão de minutos. A ironia do perdão de última hora e a ânsia pela liberdade (que justificam o título do filme) quase passam completamente despercebidas, além, é claro, do tom maniqueísta de “a culpa não é minha, sou vítima do sistema” que permeia a obra.

Esses maniqueísmos lembram muito Frank Capra, cineasta americano queridão à época, com a diferença na sempre presente obscuridade do diretor alemão, mesmo que disfarçada pela ingenuidade aparente de sua dupla de protagonistas. Capra sempre encontrava um ponto em comum entre indivíduo e meio, corrigindo os desajustes, sendo eles do homem que se vê errado e, por meio do amor dos demais, se integra corretamente à sociedade (A Felicidade Não se Compra), ou quando o erro está no sistema, este se adaptando ao ideal de um homem de bom coração que desde o começo insistia em corrigí-lo (A Mulher Faz o Homem).

Para Lang, a esperança apenas não é tão forte ao ponto de operar ajustes, devendo-se, portanto, manter-se em sintonia com o meio, pois uma vez iniciada a descida, o trágico é o único destino, o que chega a ser contraditório com o defendido pelo próprio diretor em outra de suas obras (talvez a mais famosa delas), Metrópolis, aonde a subversão, mesmo acarretando consequências trágicas, levara a uma mudança para a melhor. Mas Lang não destrói a esperança. Ela ainda estava lá, diante dos olhos. A diferença é que não mais como agente de mudança, apenas um reconforto quando não resta mais nada a se fazer nem aonde ir.

Fatalista? Talvez. Mas Lang estava na América agora e tinha de dar a sua visão da nova pátria e, diferente de Capra, ele não acreditava nela.

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3/5

Só se Vive uma Vez (You Only Live Once) – EUA, 1937 – Direção: Fritz Lang – Elenco: Henry Fonda, Sylvia Sidney, Barton MacLane, Jerome Cowan, Margaret Hamilton, William Gargan, Charles ‘Chic’ Sale, Jean Dixon, Guinn ‘Big Boy’ Williams, Warren Hymer

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