por Bernardo Brum

À primeira vista, poderíamos ter a impressão de que Bong Joon-Ho é um diretor quase sádico com seus personagens. Suas lentes capturam pessoas erráticas, neuróticas e confusas, quase patéticas, envolvidas em constrangedoras e desoladoras situações. Mas assim que percebemos a consciência que o diretor tem de sociedade e indivíduo, essa suspeita logo se desfaz. Porque o sul-coreano dá voz às pessoas de todos os dias. Não os grandes heróis, mas os perdedores, os desengonçados, os que estão abaixo na cadeia alimentar. Como o inútil e preguiçoso pego pra herói Gang-du, em O Hospedeiro ou os desnorteados e incompetentes policiais em Memórias de um Assassino.

E de novo, lá vamos nós com uma mãe solteira. Seu filho, Do-Joon, sofre de um atraso mental e odeia ser considerado retardado – sempre partindo para a briga com a mínima menção que uma pessoa possa fazer sobre o assunto. Dividida entre dar atenção ao filho e garantir o sustento dos dois, a mãe nem sempre pode tomar conta do mesmo, nem das companhias com quem anda. E um dia, depois de uma noite de bebedeira, ele é acusado por assassinato.

Assim como em sua abertura, em que a protagonista, com uma expressão mortificada no rosto, dança de forma comicamente desajeitada, Mother é um filme totalmente marcado pelo aspecto da obsessão – no caso, a de provar a inocência do filho – não importa a quantos constrangimentos, desconforto e morbidez tenhamos que testemunhar. A mãe segue, incansável, na narrativa pouco usual de Joon.

Ponto importante a se ressaltar, assim como em seus outros filmes, é esse ritmo tão pouco usual que o cineasta imprime às suas obras. Em busca de uma escultura de tempo e dramaturgia próprias, a obra é feita de contrastes fortíssimos. O ritmo truncado, composto de vários episódios que se seguem imprevisíveis, não impede momentos confusos e frenéticos, nem intermináveis momentos de suspense dilatados além do que a gramática cinematográfica costuma permitir. As sequências ao mesmo tempo são preenchidas por uma dramaticidade levada ao nível do exagero e um senso de humor negro deslocado e doentio, dando a impressão de vários arcos dramáticos resolvidos de uma só vez. Os timings determinados através dos anos por especialistas em entretenimentos, de Howard Hawks a Steven Spielberg, são solenemente ignorados a favor desse segundo olhar oferecido pelo diretor.

Com o andar da carruagem, as nossas piores suspeitas irao se confirmar. Pelas condições precárias que os indivíduos de Mother vivem, é natural querer, de certa forma, poupar ou passar a mão na cabeça deles. Não para o sul-coreano: devido a inocência, falta de instrução, precipitação, retardo mental ou seja o que for, todos estão sujeitos a cometer besteiras, o tempo todo. E elas são irreversíveis. Atos irreversíveis que entram em choque com instintos imutáveis, tanto o de sobrevivência, como o da dedicação pela prole. Instinto esse que consegue fazer qualquer coisa em nome da preservação – inclusive negar verdades inconvenientes. Simplesmente porque o mundo real muitas vezes está distante demais do nosso ideal de tranquilidade para que possamos aceitar.

Ao final de pouco mais de duas horas de projeção, a sensação que sobra é unânime: estamos psicologicamente devastados, emocionalmente abalados. Porém,  a nós não será possível dançar desajeitadamente nem fazer piada para esquecer o que se passou na tela: algo que vai muito além de um triste estudo psicológico de certos aspectos de nossa personalidade. É, na verdade, grande cinema.

5/5

Ficha técnica: Mother – A Busca Pela Verdade (Madeo) – 2009, Coréia do Sul. Dir.: Bong Joon Ho. Elenco: Won Bin, Ku Jin, Hye-ja Kim, Ku Jin, Yoon Jae-Moon, Mi-sun Jun, Young-Suck Lee, Sae-Beauk Song.

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