por Bernardo Brum

Mais um exemplo da egotrip psicótica, toxicômana e libidinosa que foi a década de setenta, O Estranho Vício da Senhora Wardh é despido de qualquer pingo do que hoje se chama “politicamente correto”. O giallo – subgênero cinematográfico que carregou o cinema da época de uma forte e quase psicodélica orgia de imagens hipercoloridas – era feito por autores que pouco se preocupavam em algum tipo de “responsabilidade” de produzir imagens. Daí, assim como o cinema exploitation, não ter dado outra: os filmes eram, sem exceção, inconseqüentes e amorais. E são poucos cinemas que podem ter o orgulho de bater no peito na hora de decidir quem, afinal, teria tratado de perversão com mais intensidade.

Intensidade, porém, que não significa distanciamento. A obra de Martino está cercada de personagens podres e culpados. Para ficar no exemplo mais óbvio, a senhora Wardh, promíscua, covarde e sadomasoquista. Aliás, muito do filme se embasa justamente nesse fato, de uma mulher tentando se encaixar na vida burguesa e revelando como isso tudo, afinal, é tedioso. Nada é um ultraje, nem duas mulheres se agarrando sem roupa no meio de um evento de gala, nem passar noites inteiras com homens estranhos quando se é casada: nada desmonta a moldura inexpressiva da deliciosa Edwige Fenech. A não ser, é claro, o “estranho vício”, únicos momentos que a protagonista demonstra ser capaz de sentir prazer – que só aparecem por meios de lembranças ou sonhos.

E isso é só um exemplo dos muitos personagens que circulam no filme, cheio de mentiras, ambiguidades e reviravoltas a rodo: todos são suspeitos, todos tem algo de condenável para revelar até o final da projeção e nem quem é perseguido ou testemunha, afinal de contas é tão inocente assim. O roteiro sugere o tempo todo, mas demora muito a mostrar, enfocando intensamente sexo, drogas, relacionamentos clássicos desfalecendo, mudanças comportamentais drásticas e, como não poderia deixar de ser tratando-se desses comedores de macarrão, violência brutal e doentia sem segunda análise por trás.

A grande diferença é a real preocupação de Martino com o enredo e o seu desenrolar, coisa não tão comum nesse subgênero (tramas mirabolantes eram o de menos – na verdade, eram histórias muito simples que, adentrando em um mundo de fotografia e música hiperbólicas, ganhavam um outro significado). Se Dario Argento e seu Prelúdio Para Matar nos declaravam culpados através das lentes (afinal, a nossa visão subjetiva era a do assassino, e não da vítima), Martino, ainda que carregue no visual, aponta o dedo na cara do espectador por meio de ações e palavras. Esqueça os antigos filmes de mistério, quando pérfidos vilões torturavam inocentes vítimas: o diretor não dá trégua, a protagonista, o antagonista e quem compartilha desse jogo são pessoas bem mais feias do que se mostram ao mundo.

E, suponho eu, não há nada melhor para despedaçar uma máscara do que uma boa e velha navalha reluzente, não é mesmo?

4/5

Ficha técnica: O Estranho Vício da Senhora Wardh (Lo Strano vizio della Signora Wardh) – Itália, 1991. Dir. Sergio Martino. Elenco: George Hilton, Ivan Rassimov, Edwige Fenech, Conchita Airoldi, Manuel Gil, Carlo Alighiero

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