– por Guilherme Bakunin

O resultado cinematográfico geralmente vem acompanhado das marcas do processo. O maior artista em um filme é o seu diretor – ou pelo menos deveria ser, num mundo que fosse mais ideal do que real e onde filmes ruins simplesmente existiriam menos. E seu processo geralmente vem acompanhado por falhas: as marcas evidentes de uma câmera na mão ou de uma panorâmica que pode não ter dado tão certo, mas que por diversos fatores como tempo e beleza, acabou entrando para o corte final. Mas nem em 1964, nem mesmo num Stanley Kubrick na casa dos trinta, nem mesmo assim, essas falhas tornaram-se evidentes. Isso porque, assim como um Michelangelo pole sua Pietá conferindo-lhe características helenísticas, Kubrick pole seu filme, depura-o e o refaz, para que se torne perfeito. E nem mesmo em 1964, onde Kubrick ainda não produzia um filme por década ele falhou. Dr. Fantástico surgiu num dos momentos de grande tensão da Guerra Fria, um conflito puramente ideológico. E como se Kubrick tivesse vestido as vestes para a batalha (e junto com ele, toda uma equipe competente que contribuiu, muito, para o resultado final), ele entrou para a batalha com “a maior de todas as armas”, o humor.

A humanidade se transforma pelo fogo e Kubrick entende essa tragédia e consegue exprimir dela a comicidade necessária para não apenas nos entrenter com as situações, mas também ridicularizar nossos valores. Com uma loophole, um insano general do exército americano cria um plano de ataque a algumas bases russas em pleno os anos 60. Por causa das diversas camadas de protocolos de segurança, ninguém no planeta é capaz de deter o ataque iminente que, inevitavelmente culminaria em mais uma guerra mundial, desta vez altamente nociva à Terra. Com o propósito de lidar com a delicada situação, o alto escalão do governo americano, inclusive seu despreparado presidente em pessoa, se reune na sala da guerra, onde a propósito, é inapropiado lutar. O fato é que ninguém está realmente preparado para a situação. A guerra, para Kubrick, é um desfile pitoresco de carnaval, onde as mais exdrúxulas personagens têm a sua vez para brilhar com suas respectivas auras de loucura e devaneio. Entre texanos e russos, Peter Sellers se destaca ao receber em seu corpo o espírito do deus dos atores e criar não uma, não duas, mas três irretocáveis atuações.

Entre o humor da falta de tato do presidente ao lidar com seus subordianos americanos e com o rude primeiro ministro russo, existe a tensão nas cenas do avião, onde a aeronáutica americana se prepara para o ultimate ataque à Russia, e o grande desastre em uma base americana, aquela comandada pelo general suicida que arquitetou toda a confusão apocalíptica.  O general é conspiracionista, acredita que os russos estão envenenando os fluidos da América e, portanto, decide contra atacar. A conspiração é, de fato, o espírito da grande Guerra Fria: existe na imaginação do homem. Esse mesmo pensamento está sutilmente presente em outras guerras, onde a ideologia é posta acima da vida, onde o plano das ideias é pedestiado em relação ao plano real e o destino trágico e inevitável do gênero humano se encaminha para as mais densas trevas. A lunática América é muito mais platão que aristóteles e, afinal de contas, todas as guerras são. A transformação das sociedades é história para os livros de história, para o plano além do metafísico e Kubrick sabe disso. Em todas as eras, homens são homens, pobres são pobres, povo é povo e elite é elite. A real transformação, aquela que verdadeiramente vai mudar o mudo virá com o fogo. Fogo e calor. Aquela que já começou a acontecer. Seja em EU SOU HIROSHIMA ou NO HORROR, NO HORROR. A morte, o hades, o diabo. Foi aí que o plano sobrenatural ascendeus das chamas do inferno e começou a povoar a terra. Foi aí que claramente a humanidade descobriu que não há limites para a maldade da humanidade. E Kubrick e Peter Sellers sabem que, de uma forma ou de outra, nós nos encontraremos de novo com esse terror. Até lá, existe o carpe diem, existe o cômico, existe o entretenimento.

5/5

Ficha técnica: Dr. Fantástico (Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb) – EUA, 1964. Dir.: Stanley Kubrick. Elenco: Peter Sellers, George C. Scott, Sterling Hayden, Keenan Wynn, Slim Pickens, Peter Bull, James Earl Jones, Tracy Reed.

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