por Bernardo Brum

Com o pós-guerra, os cineastas americanos lentamente foram abandonando os herós tipicamente clássicos daquele período e fazendo uma transição gradual para arquétipos menos Cecil B. DeMille e Victor Fleming e mais Orson Welles e Raoul Walsh: é o caso de Nicholas Ray, que desde o seu debut criticado aqui voltava a seu olhar não para ícones, super-homens e exemplos de seres humanos, mas para indíviduos trágicos, desajustados em sua humanidade e angustiados por suas paixões, vícios, falhas e limitações. Incapazes de contorná-las ou superá-las, tudo o que lhes restava era conviver com elas – ou então simplesmente cair vítima de sua força.

Amarga Esperança não desvia esse olhar um centímetro além desse objetivo inicial: desde o início, Arthur Bowers parece irremediavelmente fadado à desgraça por ser perseguido tanto por ex-parceiros do mundo do crime quanto pela lei. Tudo o que lhe resta é o relacionamento tempestuoso com Catherine, apaixonado e leal, porém tão ingênua e confusa quanto ele.

O clima noir não engana:  Arthur e Catherine usam a noite para fugir de um mundo que pouco ou nada tem a ver com eles, e acabam sendo tragados pela escuridão. Se os irmãos Coen constataram que este não é um país para velhos alejados e feridos, também não é para jovens sonhadores e inocentes. Não podem confiar em ninguém e, pouco a pouco, todos os planos que traçaram, todo o fanatismo à uma causa e todo porto seguro que possuem desmorona em poucos dias. O sentimento de ser uma criança sozinha no escuro estava desde o primeiro filme impregnada na obra de Nicholas Ray.

Alter-ego do seu próprio diretor – tão valentão quanto sensível, malandro porém otário, desencantado ainda que esperançoso – o casal alertou ao cinema americano que a caminho surgiria um dos mais importantes artistas do seu tempo, que utilizaria os elementos básicos da linguagem cinematográfica de uma forma totalmente original: Nicholas Ray, afinal, foi um divisor de águas. Depois dele, jamais o nosso lado introspectivo, a nossa persona tão belamente trágica quanto ocultamente feia, seria retratada da mesma forma.

Um belo começo, afinal de contas, para o homem que era o cinema.

3/5

Ficha técnica: Amarga Esperança (They Live By Night) – EUA, 1948. Dir.: Nicholas Ray. Elenco: Farley Granger, Jay C. Flippen, Cathy O’Donnell, Howard Da Silva, Helen Craig, Will Wright

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