por Bernardo Brum

À certa altura do filme, a filha mais nova sai do seu quarto à procura da irmã. Quando finalmente a encontra, vê que a mesma está de pernas abertas e cabelos desgrenhados e seu pai está subindo as calças. O que aconteceu ali é óbvio, mas tudo é encarado com medo e silêncio. Não há nenhuma dramatização pesada ou conversa longa sobre o que acabara de acontecer ali: o assunto é varrido para debaixo do tapete com uma frieza que nós, que assistimos de fora, achamos simplesmente inacreditável.

Esse é o clima opressivo que predomina em A Fita Branca. O do escândalo pesado reprimido por uma sutileza e uma leveza quase irritantes. Haneke jamais polemiza e faz sua câmera manter uma distância marcial de qualquer personagem. Estupros, destruição de propriedade alheia, espancamento, mutilação, tortura; nada disso importa tanto para o diretor quanto o indivíduo em si, repreendido, censurado, esmigalhado por dentro. As figuras de autoridade – pais, pastores, professores, médicos, donos de terra e policiais – são gigantescos, frios, impenetráveis e ameaçadores.  Haneke não os abre totalmente, apenas o necessário, a saber:   personas com poder sobre as outras que escondem um lado repulsivo e condenável.

O lado reprimido pelo poder, as crianças, são suspeitas de revidar  com uma vingança silenciosa, escondida por mentiras e juramentos. Quando se sente atacada, a comunidade nem pensa em acusar a criança, e ai do professor que chega a suspeitar dela.  Não com eles, não com nós, espectadores.  Esse é o jogo de Haneke ao mexer com o próprio fetiche que desenvolvemos pela violência: quando ela não é exibida, torna-se dez vezes pior, e qualquer carga de dominação e submissão logo é escancarada em seu jogo de sutilezas como realmente são – atos monstruosos que o ser humano torna-se capaz de cometer quando não é capaz de reagir abertamente ao “sistema” que o estrangula. Mais terrível ainda é o fato de jamais exibir isso como justificativa ou desculpa para responder. São apenas motivações, pistas e indícios. Longe de passar a mão na cabeça de qualquer um, ninguém está a salvo do estudo psicológico de Haneke: qualquer um é capaz disso, basta encontrar-se isolado e incomunicável – seja nas grandes cidades, como em Caché e O Sétimo Continente, seja numa comunidade rural do início do século vinte, como é o caso aqui. Tônica da obra e de qualquer filme do diretor: passividade gera violência. Quanto mais se reprime e se domina, mais violência é gerada, irreversivelmente.

Por isso, mesmo que tenha todo aquele jeitão abominado pelas grandes massas hoje em dia – filmes longos e cadenciados, câmeras estáticas e de movimentos mínimos, arquitetação meticulosa de sutilezas, grandes momentos de silêncio, uma fotografia tão gélida quanto cinzenta – é que Michael manifesta-se e se faz ouvir, agindo de forma rebelde e anacrônica com um cinema e um público que não fazem questão do poder de fogo de sua linguagem. Nem que para isso tenha que fazer o filme europeu chato do ano, isso não é barreira para o diretor. Daí que o grito torna-se impossível de não ser ouvido – mesmo que seja soterradas por toneladas de barulho, máquinas, mídias e máscaras sociais. Nunca tão estranho, porém nunca tão necessário.

4/5

Ficha técnica: A Fita Branca (Das Weisse Band) – França/Itália/Alemanha/Áustria, 2009. Dir.: Michael Haneke. Elenco: Christian Friedel, Ernst Jacobi, Leonie Benesch, Ulrich Tukur, Ursina Lardi, Burghart Klaußner, Steffi Kühnert, Josef Bierbichler

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