por Bernardo Brum

Apesar da abordagem (e da locação) inovadoras, o que é realmente agradável em Distrito 9 é que a obra não tem compromisso com nada nem com ninguém. Sem preocupação com pipocas, refrigerantes, cineclubes e cigarros Gudang, tal qual um Eles Vivem pós Dogma 95 e Michael Bay, o filme emerge de um passado onde seria aceito com menos estranhamento – os obscuros sci-fi oitentistas – dando uma voadora em uma modernidade politicamente correta e anestesesiada por uma turbulência e uma freneticidade esteticamente vazias.

Tal postura é cravada desde o início, no terço “falso documentário” que abre o filme para explicar a situação sobre o naufrágio dos alienígenas “camarões” na Terra – e, ao contrário do filme de Carpenter, onde toda aquela sujeira e corrupção é desvendada como sendo uma liga de alienígenas que destroem a subjetividade, aqui os aliens que sofrem na mão dos verdadeiros vilões, os seres humanos. Seres preconceituosos, cruéis e sem um pingo de sensibilidade. Os aliens, apesar de muitas vezes irritadiços, não passam de meras vítimas dos donos de terra que chegaram primeiro e só aceitarão dividir espaço com outra raça consciente caso essa mesma faça concessões – e como não podia deixar de ser para quem chegou depois, terão de abrir mão das necessidades mais básicas por não ter como voltar para casa. A oportunidade para que isso aconteça só ocorre, então, quando Wilkus van der Merwe, um agente especial para os assuntos envolvendo a raça excluída pela sociedade, é infectado com um vírus que funde o DNA humano com o DNA extraterrestre.

E pronto. É isso. Daí para frente o filme será uma perseguição cada vez mais insana e crescente, envolvendo toda a sorte de explosões, tiroteios, gore, até culminar em um final cruel e impiedoso para o seu protagonista, que mesmo aprendendo a reconhecer os alienígenas como indivíduos, nunca será um deles, mesmo que a mutação avance cada vez mais. Ele ainda desejará voltar para casa, mas nunca mais será aceito novamente – não depois de tornar-se inimigo público número um por mostrar a um mundo fragmentado em religiões, ideologias, etnias, escolhas sexuais e tantas outras coisas que sim, é possível comungar de diferenças. Mas Distrito 9 não passa a mão na cabeça – duro e ríspido, é um retrato intenso sobre o ódio humano. Se o seu antecessor direto, Eles Vivem, além de avacalhar com tudo, mostra a facilidade com que o ser humano pode se corromper, o filme de Neil Blomkamp mostra de forma mais intensa ainda a facilidade da criação do sentimento de ódio – usando a carapaça “muderna” como mero pretexto, ou mero contrabando de linguagem mesmo, para chegar no ponto que quer da forma mais seca possível. Aí que é criado o dilema – a linguagem desenvolvida para adormecer o cérebro acaba sendo percebida como uma operação sem anestesia.

Vindo dos anos oitenta, o filme provavelmente seria um clássico da tv aberta, um ícone nostálgico, uma peça rara do trash que mesmo com tanto adjetivo pejorativo sobre ele, muitos veriam algo a dizer por trás da camada rude, tosca e por que não, B; lançado nos dias de hoje, é relegado a uma injusta fama de “uma produção de Peter Jackson”, um concorrente do Oscar que saiu de mãos abanando, um filme independente a mais na lista de novidades “alternativas” que você deve assitir. Mas não se deixe enganar; Distrito 9 é um daqueles raros filmes truculentos, sem firulas e escancarados que só surgem muito de vez em quando e que só usa discos voadores, extraterrestres bizarros e armas a laser para poder esfregar na cara o que somos capazes de fazer com quem é diferente e, mais ainda, com nossos semelhantes.

Mas aí, se você considerar isso muito ultrapassado, de pouca ou nenhuma vanguarda e achar que já fizeram melhor antes, você definitivamente não pode culpar a absoluta cara de pau de Neil Blomkamp ao despir suas intenções para todo mundo vê-las como vieram ao mundo. Certamente nós estamos ficando cada vez mais cínicos em relação a tudo, mas não é a hora nem a vez de confundir alhos com bugalhos.

Principalmente com um filme tão divertido assim.

4/5

Ficha técnica: Distrito 9 (District 9) – EUA/Nova Zelândia, 2009. Dir.: Neill Blomkamp. Elenco: Sharlto Copley, Jason Cope, Nathalie Boltt, Sylvaine Strike, John Sumner, William Allen Young, Nick Blake, Vanessa Haywood, David James

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