por Bernardo Brum

Outro afilhado de Roger Corman, Monte Hellman se valeu de metade do elenco de protagonistas de músicos (o cantor solo James Taylor e Dennis Wilson, dos Beach Boys) para fazer o filme mais despido já feito. Assistir o filme em toda a sua sobriedade assustadora é como estar sem roupa o tempo inteiro. Sem máscaras, nem nada. Sem explicações, sem motivo, sem história. Sem nomes. Sem clímaxes, sem grandes histórias a serem contadas. Enquanto isso, todo o resto tem nomes. Os carros, os postos de gasolina, os aeroportos, as estradas… Todos são conhecídissmos por qualquer um que você parar na rua. As pessoas evocam uma certa epifania “Bressoniana” – a verdadeira essência, os verdadeiros momentos humanos, são raríssimos e constituem clímaxes de um segundo em um filme sem auge algum. Linear do início ao fim. Começa com o motorista e o mecânico apostando um racha, termina da mesma forma. No meio do caminho, aparecem uma caroneira pra lá de liberal e o singular GTO – tão gente boa quanto casca-grossa, tão bem-humorado quanto amargurado -, o único personagem com nome de fato, e que só tem esse nome por causa da marca do seu carro.

Os simbolismos que Hellman imprime na obra são tão unicamente sobre corpo, espaço e máquina. Nada sobre o tempo, nada sobre denominações. As conversas não tem significado extra algum. O que importa é a cadência dos mesmos na obra – quando esquecem que estão apostando uma corrida que atravessa do Tenessee até Washington D.C., quando esquecem os nomes uns dos outros, quando interrompem diálogos de formas bruscas, quando se ignoram, quando sacaneiam alguém e nem mesmo assim dão risada. Poucas sequências podem ser tão sintéticas quando lá pro meio do filme eles quase batem em outro acidente de carro, e quando saem e se recuperam, voltam para o carro e esquecem (na verdade, parecem nem ter visto) o defunto de pescoço quebrado e o velho que sobreviveu e está cheio de culpa.

Assistir Two-Lane Blacktop é como ouvir Tom Waits. Andar pela América dos fodidos, dos culpados, dos angustiados, dos sinceros, dos mentirosos, dos que não tem nome, das estradas infinitas, dos objetivos esquecidos, da falta de perspectiva, do porre ocasional, das garotas tão fiéis quanto volúveis, dos rachas, de um mundo sendo consumido por seres automatizados que um dia terão defeito nos carburadores. Mas que, pelo jeito, ainda está muito longe de chegar. E eles continuam correndo, correndo, correndo, pegando e oferecendo carona. Sem parar, sem volta, sem partida, sem fim. Uma América vazia, sedenta de humanidade. Algo que vai muito além de nome, motivo ou casa.

No final, no meio de uma corrida em alta velocidade, tudo vai parando. E o filme queima. Literalmente, a película entra em combustão para encerrar a obra. Um momento que arranca o espectador da cadeira e o traga para dentro da narrativa. Mais do que já estava antes. Sem refresco, como todo o resto, como ter um cigarro apagado  em alguma parte de seu corpo.

Um monumento cinematográfico. Um dos maiores filmes do cinema americano das últimas décadas. Tão importante quanto O Poderoso Chefão, Taxi Driver e A Última Sessão de Cinema, só que infelizmente nem tão lembrado.

5/5

Ficha técnica: Corrida Sem Fim (Two-Lane Blacktop) – 1971, EUA. Dir.: Monte Hellman. Elenco: James Taylor, Dennis Wilson, Warren Oates, Laurie Bird, Harry Dean Stanton

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