– por Cauli Fernandes

Chega a ser infantil o motivo de tanta paranóia: fitas-cassete contendo mais de duas horas de filmagem sobre a frente da casa onde moram Anna, Georges e seu filho. Não há absolutamente nada de interessante nas imagens; é somente um relato pedante sobre o tráfego e pedestres casuais. Entretanto, a única coisa que nos chama atenção é uma mulher e um homem saindo da dita casa, fatos que duram pouquíssimo tempo e só nos atraem porque estão em primeiro plano no vídeo.

Então, pra quê tanto medo? A casa não foi invadida, ninguém se feriu, o melhor seria esquecer o assunto. Como se houvesse chance disso: surge outra fita, desta vez de uma gravação feita à noite, em que Georges aparece voltando do trabalho. Ele se questiona (assim como nós) como não avistou a câmera, que estava bem ao lado do lugar por onde havia passado na rua. Em uma rápida análise, era possível vê-la; não estava dentro de um carro mas em cima da calçada e nada havia escondendo-a. Mas existe um detalhe perturbador acompanhando a fita: um desenho de uma criança com um risco vermelho saindo da boca, que supomos ser sangue.

Georges fica em silêncio ao encarar o desenho, parece nervoso. Ele não parece supor nada, mas ter certeza. Será que ele encara outra coisa ao ver o desenho? Aqueles simples traços trazem algo mais do que somente a perturbação atual das fitas. À noite, o sonho nos traz alguma verdade, ainda obscurecida pela ignorância: um menino está em uma janela com a boca suja de sangue.

Cada vez mais, o voyeur adentra na vida desses ricos franceses. Deixa fitas no batente da porta e não mais na frente da casa, com desenhos que evocam mais pesadelos. As gravações da fita ficam mais intimistas e atingem Georges no peito. Anna fica alheia, sofrendo por ver a família decaindo, por ver que seu marido escondendo segredos doídos e não compartilha. O homem com quem ela viveu anos não estava completo ao seu lado.

E quem poderá ajudar? De onde vêm esses olhos de ódio, vingança, que vieram espalhar a discórdia? Essa sociedade contemporânea, antes tão tecnológica e sabida, não está apta a ajudar. E porque eles decidiram enfrentar esse determinado invasor, que não difere em nada das milhares de câmera anônimas que nos captam 24 horas por dia? Estas fitas trazem feridas, ressuscitam traumas, e passado é pra ficar no passado. Quem ousar mexer nele tem que pagar.

Mas, não importa o que se faça, a paranóia só aumenta. O único suspeito diz que não é autor das fitas e de novo nos vemos num beco sem saída. Já se foi tão longe para buscar uma resposta; será que para encontrar o culpado é necessário ir mais a fundo? O que há nesse fundo é capaz de aterrorizar quem tentar imaginar.

Aliás, quem é o verdadeiro culpado? Georges tem, claramente, uma dívida a pagar, mas o que o observador quer é ver finais trágicos; a partir de um certo ponto,  julgador e julgado se mesclam quando o assunto é culpa, pois cada um fugiu do controle. Quanto ao medo, só o objeto de pesquisa sente; o pesquisador está em algum canto, imenso em seu poder, planejando seu próximo passo de dominação mental.

Há mais alguém com culpa nesses fotogramas? Haneke evoca fantasmas que vão além de um simples trio de burgueses e pairam sobre toda a França. Para construir esse império presente cheio de tendências e costumes propagandeados pelo mundo, existem culturas subjugadas e mortas. Que não foram filmadas e ninguém está interessado em discutir.

Mas estamos do lado de Georges e Anna. A nossa posição do lado deles é irrevogável, principalmente por vemos seus rostos; sermos parceiros do oculto e sem propósito claro não é oportunidade que chegamos a pensar. Inclusive somos irmãos daqueles cheios de lentes em shoppings e bancos que fiscalizam nossa segurança. Mas pode ter certeza que eles não compartilham da nossa noção de segurança.

5/5

Ficha técnica: Caché (Caché) – 2005, França, Áustria, Itália, EUA, Alemanha. Dir.: Michael Haneke. Elenco: Juliette Binoche, Daniel Auteuil, Maurice Bénichou, Annie Girardot, Walid Afkir, Daniel Duval.

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