por Bernardo Brum

O Quimono Escarlate reforça a idéia de os filmes policiais de Samuel Fuller serem verdadeiras pulp fictions filmadas. A fotografia escura sublinha em negrito as cenas de violência escabrosas e as amoralidades diárias retratadas com intensidade. Os primeiros planos parecem fotos de rostos estampados em algum jornal sensacionalista. A história é vertiginosamente rápida e quase não dá tempo de respirar. Os personagens tomam decisões radicalmente diferentes em um estalo. Assim como esse tipo de literatura distanciava-se de refinamento, paroxismos e de tons épicos ou grandiloquentes, o cinema de Fuller é primeiramente ação, emoção, paixão e vísceras. A estética é quase apelativa para que a obra nos fale diretamente, que estabeleça uma comunicação que exija uma resposta imediata, ainda que para encontrar a mesma estejamos no meio das contradições e frustrações.

Daí o diretor se afastar de maiores psicologismos ou reflexões sociais, ainda que a história do filme ronde quase o tempo todo, um tema que era próprio a Sam: o do desajuste, da sensação de não pertencimento, o choque étnico, cultural e social etc. É por onde rondam a maioria dos personagens criados em sua carreira cinematográfica, entre os muitos marginais, estrangeiros, descendentes de diferentes culturas, malucos de marca maior, prostitutas, traíras, pessoas medíocres e assim vai. Jogando a maior parte das discussões fora e centrando a reflexão (e a retirada do espectador da passividade) na força das imagens, não é de se estranhar que a obra em questão tenha a linguagem mais direta quanto o possível, onde a misé-en-scene não serve para nos localizar, mas para focar no turbilhão de emoções confusas e questões morais que seus personagens vivem imersos em um Estados Unidos selvagem, diverso e, muitas vezes, sombrio e cruel; onde a edição joga fora qualquer momento para respirar e faz a câmera captar somente o que era interesse do diretor e nada mais (fazendo uso pioneiro do método jump-cut que Godard popularizaria a partir do seu debut em Acossado); em que o típico mistério noir é inferior às questões que o diretor quer abordar sobre preconceito e aceitação (inclusive de si mesmo).

A soma de tudo isso é puro cinema de jogo com as expectativas, de impactos que são amontoados em nome de uma idéia maior, de perguntas que são apenas rascunhadas (porque o diretor sabia, afinal de contas, que isso é algo que só quem assistia saberia responder ou se aprofundar), ou seja, é o tipo de filme que, com o perdão do clichê, veio não para explicar, mas para confundir, para levantar dúvidas, meter o dedo na ferida e perguntar sobre a veracidade sobre tudo que nos é aprensetado todos os dias – inclusive no próprio cinema.

Tão rápido como começou, a bordoada termina se esvaindo no vento, deixando como única certeza que O Quimono Escarlate é um filme feito na fúria, com culhões e com suor, deixando a gente propositalmente pensar que o diretor escreveu a história “nas coxas” e anotou os diálogos em um guardanapo de bar quando estava de porre; mas que na verdade, é a linguagem das ruas, é o modo mais verdadeiro que Fuller conseguiu estreitar a linguagem entre transmissor e receptor, sem maiores interferências. Disfarçando tudo isso de ‘baixo cinema’, de aparência realmente B. Assim como um Chandler ou um Bukowski, que com sua literatura muitas vezes considerada comum e até “tosca” à época, revelaram os sintomas e doenças de uma sociedade um tanto quanto falida. E Sam, aqui, alcançou uma das mais altas expressões de tudo isso nos fazendo crer que tudo não passava de um caso de triângulo amoroso no meio de uma trama de mistério…

5/5

Ficha técnica: O Quimono Escarlate (The Crimson Kimono) – EUA, 1959. Dir.: Samuel Fuller. Elenco: Anna Lee, Victoria Shaw, Glenn Corbett, James Shigeta, Paul Dubov, Jaclynne Greene

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