– por Cauli Fernandes

O título denota algo almodóvariano, algo cheio de paixão incontrolável, mas os sentimentos que vemos na tela são tão sutis e bem controlados por seus donos que acaba indo pelo lado contrário do Pedro: a dita paixão e desejo ficam interiorizados (não vemos os rostos daqueles que os realizam), a trilha sonora não é grandiloqüente (mas sim embelezadora) e as grandes tragédias com mortes simplesmente não acontecem.

E a sutileza vai até mais longe. Logo no início do filme não somos confrontados com uma imagem, mas sim com a descrição literal do primeiro encontro do casal principal, o que não diminui sua carga emocional e poética; só porque não é imagem não quer dizer que não seja belo. A partir da entrega em carne viva do olhar essencial entre Chow Mo-wan e Su Li-zhen, vemos o desenvolver do relacionamento, que começa em um corredor para chegar em algo imenso mas, infelizmente, tão facilmente barrado por um dos pilares mais jurássicos da sociedade: o casamento.

Mas tal troca e sede entre os protagonistas não existiria se não fosse pelos seus respectivos cônjuges, que ignoram visceralmente esse pilar e começam um caso; os antes longínquos vizinhos agora estão ligados, um par pela realização do amor, outro par pela não-realização deste, e acompanhamos o martírio desses últimos seres, a angústia de não conseguir ser desleal também e o medo de confrontar com a verdade não só “eles”, mas a própria vida que levam juntos.

Chow e Su, todo o tempo, criam uma realidade particular. Nela, idealizam rompimentos, choros, um futuro de riqueza abastecida pelas histórias de samurais que escrevem. Somente entre eles, fazem o que queriam que acontecesse no casamento deles, criam uma utopia de bonança amorosa absolutamente íntima. Tal dimensão paralela ocorre em lugares inóspitos, que exalam uma tranqüilidade onírica; aquele quarto de hotel e o beco parecem ter sido guardados a anos dentro de uma caixa somente para uso deles dois. Essa sensação também se nota por onde quer que eles passem ou toquem, como um batente de porta (o close na mão de Su quando toca nele é sublime), o lugar onde se vende macarrão e o pote usado para guardá-lo, os livros emprestados e muitas coisas mais. As marcas deixadas por eles são passageiras e somente nós temos oportunidade de desfrutar, enquanto quem realmente deveria tirar proveito delas não está próximo o bastante; aliás, a câmera é incrível ao captar esse não-contato. Ela caça não a presença de uma pessoa, mas a falta de alguém.

E lá vão eles pelo tempo. Os anos passam, já ensaiaram términos dezenas de vezes, a traição continua na outra metade do relacionamento. Por uma série de atos, de coisas que acontecem e a gente não percebe, eles se separam, nem temos noção direito do por que. Mesmo assim, algo continua, um fio de alguma coisa os amarra pelo espaço (nunca se romperá). Mas ainda há chance para redenção, um pedido de desculpas por não ter feito o bastante. Infelizmente, o perdão é concedido por um tijolo de pedra, um final sem glória para algo que podia ter sido realmente glorioso. Realmente, e não em um buraco na parede.

5/5

Ficha técnica: Amor à Flor da Pele (Fa Yeung Nin Wa) – Hong Kong, França, 2000. Dir.: Wong Kar-Wai. Elenco: Maggie Cheung, Tony Leung, Ping Lam Siu, Kelly Lai Chen, Roy Cheung, Paulyn Sun.

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