por Bernardo Brum

O último filme rodado em preto e branco de Mario Bava, Olhos Diabólicos, ironicamente abriu um novo precedente no cinema fantástico italiano ao lançar as sementes do que ficaria conhecido como Giallo. A ironia reside no fato de que os filme desse filão são reconhecidos mundo afora por abusar de uma fotografia hipercolorida, recheada de uma paleta de cores violentamente contrastantes e exageradas afim de mergulhar o espectador em um universo de violência irreal, quase onírico, com o propósito de extrair das imagens a maior força possível, abrindo mão de muitos artifícios como verossimilhança ou espaço para discussões no roteiro para isso – as histórias, aliás, serviam apenas para dar o manejo psicológico o suficiente para que o diretor preparasse o espectador um mínimo para então lançá-lo em uma atmosfera inacreditável.

Bava ainda amadureceria a idéia, especialmente na estética, alguns anos depois, com Seis Mulheres Para o Assassino e Banho de Sangue. Mas a idéia clássica desse tipo de enredo germinaria aqui, fortemente banhada por Alfred Hitchcock e seu O Homem Que Sabia Demais (tanto que o título original, La Ragazza Che Sapeva Troppo, ou em bom português, A Garota Que Sabia Demais, denuncia isso).

A história de Nora Davis – americana que viaja para Roma e é testemunha ocular de um assassino que não vê o rosto – é uma divertida brincadeira de Bava com o ocorrido no original, quando James Stewart e sua família testemunhavam um espião inglês ser morto por conspiradores. Reaproveitando a idéia de um estranho em uma terra estranha que é tirado forçadamente da rotina ao tornar-se alvo de uma figura sinistra que desconhecem, não podendo confiar em ninguém por intermédio disso, Bava antecipou as tendências de três décadas seguintes (já que esse recurso de roteiro seria explorado exaustivamente, de O Pássaro das Plumas de Cristal e O Segredo do Bosque dos Sonhos até Pânico e Eu Sei o que Vocês Fizeram no Verão Passado, passando por HalloweenA Noite do Terror e Sexta-Feira 13…), de forma bastante despretensiosa.

Talvez Olhos Diabólicos erre  por ser um filme convencional demais, que não quer se desprender das amarras de Hitchcock, sem contar que possui um humor muitas vezes deslocado e já datado, especialmente nas piadinhas sobre maconha (mas como em 1963 não se fumava tanta maconha que nem hoje, é compreensível). E que Bava não tinha muito de Hitchcock, não é muito difícil de adivinhar. Com isso, o filme é guiado na maior parte do tempo por uma trama de mistério à lá livro barato de banca de jornal (o engraçado é que Bava parece ter consciência disso, já que a protagonista é fã desse tipo de literatura) ao invés dos insights filmados em ritmo de puro delírio aterrorizante.

Poucas vezes vimos isso aqui, mas como diriam no jargão popular, quando Bava decide mostrar a que veio, aí é que o bicho pega. E toma-lhe sequências que pulsam uma tensão crescente e abusam de enquadramentos marcantes, iluminação inacreditável e closes e planos detalhe que só o velho maestre do macabro conseguiria fazer. Pena que não duram mais. Mas o pioneirismo, por si só, já torna o filme obrigatório.

3/5

Ficha técnica: Olhos Diabólicos (La Ragazza Che Sapeva Troppo) – Itália, 1963. Dir.: Mario Bava. Elenco: Letícia Roman, John Saxon, Valentina Cortese, Titti Tomaino, Luigi Bonos, Milo Quesada, Robert Buchanan

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