por Bernardo Brum

Tarantino começa o filme duas vezes. Coloca defeitos propositais na tela e torna uma sequência preto-e-branca aleatoriamente como se estívessemos testemunhando o filme em algum projetor vagabundo. Se dá ao luxo de filmar sequências longuíssimas de diálogos e cenas violentíssimas por vários ângulos e cenas de perseguição de tirar o fôlego. Apesar de diferirem bastante do seu sucessor Bastardos Inglórios, os filmes Kill Bill e À Prova de Morte visam um único objetivo: tornar seus filmes uma experiência cinematográfica completas em si. Apesar de ser ostensivamente referencial, mesmo assim não  ficam lacunas. Seu conhecimento cinematográfico pode ser mínimo ou máximo, você ainda é capaz de aproveitar um filme do Tarantino do mesmo jeito. Você não precisa ler um livro, conhecer aquilo e isso para entender o que o diretor quer dizer: você está no mundo dele, sujeito ao jogo de expectativas e imagens dele, mas há uma sinceridade transparecendo: Tarantino jamais te chama de burro ou quer fugir do encontro do espectador, fazendo-se hermético. Trocando em miúdos, é um filme de um cara que gosta de filmes com violência estilizada – nem por isso burra – para pessoas que são fãs de filmes com essa característica particular – e que nem por isso sofrem de alguma deficiência cognitiva.

E claro, há o outro ponto da experiência cinematográfica completa; a que Tarantino faz questão de lembrar, através de uma câmera ativa e crítica, que o que você está assistindo é apenas um filme. Isso justifica toda a violência fílmica, toda a cultura pop possuída pelos personagens e o fato deles só falarem sobre isso, as marcas de produtos que só existem nos filmes, todas as inverossimilhanças, todas as maluquices formais de linguagem inseridas pelo diretor no filme. Já foi dito que até realizar Bastardos Inglórios, Tarantino parecia encantado com o próprio mecanismo cinematográfico e não parecia ser muito capaz de fazer algo além de reciclar histórias ao seu estilo particular; discordo em gênero, número e grau. À Prova de Morte é uma grande prova disso. Onde acham que há encanto, há uma ironia dominando. Tarantino pode adorar o cinema, mas jamais deixa ser ludibriado e jamais torna-se um mero brincalhão.

Que por mais que tenha sido declarado como um grande projeto despretensioso por parte de Quentin e Rodriguez no projeto Grindhouse, À Prova de Morte antes de satisfazer aos fãs, satisfaz a idéia do que Tarantino imagina ser um bom filme para colocá-la em choque com as expectativas dos fãs. Está a serviço das próprias preocupações formais; da ironia que a cultura popular criou, das possibilidades icônicas e semióticas que rock and roll, lap dance e cervejas possam ter. É claro que às vezes uma bunda rebolando é só uma bunda rebolando, mas quando ela é seguida de um missing reel seguido de uma roda esmagando a cabeça da dona da bunda, isso diz bastante sobre a forma como Tarantino enxerga o dispositivo com o qual escolheu trabalhar.

Daí é compreensível muita gente ter se decepcionado com À Prova de Morte parecer mais com Tarantino do que com Vanishing Point ou algum filme de Russ Meyer. A referência é o de menos quando colocada dentro do universo que o diretor quer; o das mulheres poderosas; o dos homens escrotos;  das projeções chulas; do cinema barato, direto e apelativo. E nesse cinema, há de se saber que se pode ter o conflito de forças de um Hawks; a forma sendo a motriz do conteúdo como um Godard (nisso está a sutil quebra de diegese feita pela dublê de Uma Thurman, Zoe Bell, ao colocá-la para interpretar ela mesma e nos revelar que Kill Bill é apenas um filme sem nunca precisar olhar para a câmera, falar com o espectador ou coisa do tipo – é tudo um sutil jogo de sutilezas); do contexto imoral e sujo e da obsessão por planos detalhistas, muitas vezes minimalistas em matéria de movimento de câmera, de um Leone – afinal, muitas vezes, a estática pode muito bem dizer muito mais que os movimentos frenéticos – sejam os planos de olhos de Clint Eastwood, seja uma lap dance filmada em um contra-plongée tarado com uma profundidade de campo distorcida – a ironia Tarantinesca é que extrai toda a força da imagem.

Pode-se dizer, também, que À Prova de Morte é um libelo às mulheres, um Uma Mulher é Uma Mulher meets Vanishing Point meets Faster, Pussycat! Kill! Kill!. As mulheres são poderosas, firmes e decididas; elas tratam os homens como capacho; elas usam o sexo como moeda de troca; elas zoam (ou matam…) quem as importuna. Essa forma de enxergar as mulheres – como livres, independentes, selvagens, furiosas e cool diz muito sobre a linguagem cinematográfica de Tarantino. Apesar de ter suas várias camadas de desconstrução de gênero cinematográfico (um filme de perseguições entremeado por longos diálogos à lá Acossado ou O Desprezo), a imersão nessa proposta é muito mais importante. É mais importante analisar a experiência por si só do que ficar procurando paralelos, referências e extensões. Isso é Tarantino, basicamente. Cinema por si só, sem depender de mais nada.

4/5

Ficha técnica: À Prova de Morte (Death Proof) – EUA, 2007. Dir.: Quentin Tarantino. Elenco: Kurt Russell, Rosario Dawnson, Vanessa Ferlito, Rose McGowan, Sydney Tamiia Poitier, Zoe Bell, Quentin Tarantino, Eli Roth, Nicky Katt, Marley Shelton, Michael Parks, James Parks