– por Guilherme Bakunin

Why the fuck did they go to the russians? Ora, eles foram aos russos porque estavam perdidos, num mundo que já não é mais o mesmo e que já nem tantas coisas acontecem mais. Enquanto todo o planeta cria filmes que remetem a acontecimentos passados ou que se focam dentro de personagens, distanciando o cinema completamente do meio, como fazer um filme que reflete os nossos tempos e que possua um valor histórico imensurável? Bom, você vai fazer Queime Depois de Ler.

Dezenas de personagens que estão vivendo um momento qualquer e sem muita importância de suas vidas, e que começam ter suas histórias narradas para nós, espectadores. Essas pessoas são falsas e conspiratórias, sempre procurando uma brecha para dar um chute em alguém e favorecer-se a partir disso. Uma mulher tem um amante e seu marido se demite da CIA shit. A partir daí tudo é paranoia e nada de fato acontece.

Durante a trama quase todos morrem e sagrados matrimônios vão para o espaço, enquanto Joel e Ethan Coen filmam através de de carros, galhos de árvores, com o que parece ser uma máquina fotográfica. Existe alguém espionando George Clooney. CIA? FBI?  Tuchman Marsh cia de advocacia ltda? Quando a consciência pesa, o mundo inteiro está contra você e até um vibrador possui um objetivo maligno.  Suas atitudes demonstram seu estado de espírito e George Clooney, que está traindo a mulher com no mínimo três outras mulheres, está atormentado, atira em  pessoas depois de vinte anos e foge para a Venezuela. Malkovich foi traído pela mulher e pelo trabalho e, sem saída, enlouquece.  McDormand chegou até onde podia com o corpo que tem e faz de tudo para conseguir uma imagem nova. Reflexo das aspirações e dos valores sagrados americanos, consolidados mais ou manos à época da Guerra Fria e que inexoravelmente ajudou a criar os americanos como eles são hoje.

Claro que a análise do filme não precisa ser tão rígida. Queime Depois de Ler é engraçado, dá pra rir muito fácil. O que não dá pra fazer, porém, é ignorar que o filme foi dirigido pelos irmãos Coen e quem os conhece sabe que eles não vão para o campo de batalha à toa. Todos os trabalhos dos cineastas brincam, remontam e estudam determinados aspectos dos Estados Unidos ou da sociedade americana (sendo que o cinema americano é um dos temas mais recorrentes) e portanto, com esse filme essa história não seria diferente. Claramente brincam com a obsolência das grandes corporações governamentais e de forma inusitada narram os reflexos que toda a confusão e falta de rumo, depois de mais de cem anos de guerras e anestesiação, que engoliram os filhos da América. Dois grandes chefões da CIA se questionam o que poderia ter acontecido e o espectador menos atento vai achar que nós estamos personificados neles. Na verdade, somos Jack Nicholson em Chinatown, perdidos, mas cientes. Estamos cientes porque Joel e Ethan Coen nos mostraram que Clooney preparava algo ultra secreto e que no final das contas era uma cadeira de sexo. Com isso em mente, saiamos de nossas casas e encaremos as nossas vidas, cientes de que todas as coisas que acontecem acontecem provavelmente por ócio.

5/5

Ficha técnica: Queime Depois de Ler (Burn After Reading) – 2008, EUA, Inglaterra, França. Dir.: Joel e Ethan Coen. Elenco: George Clooney, Frances McDormand, Brad Pitt, John Malkovich, Tilda Swinton, Richard Jenkins, Elizabeth Marvel, David Rasche, JK Simmons.

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