– por Guilherme Bakunin

Em algum lugar insólito na França existem pessoas de diferente idade, felizes e íntimas, que compartilham e se entregam para o que deve ser o conceito personificado de uma relação familiar. Como explicar uma criança e uma mulher, irmãos, nus, brincando com dedicação e sinceridade num banheiro, que costumeiramente é entendido como um ambiente privado, mas que aqui é sempre filmado de portas abertas, cheio como uma sala de estar.  A família construída por Meier é unida, e potencialmente inabalada em seu refúgio.

A fortaleza familiar se rompe porém, com a chegada da civilização. Sob a forma de uma rodovia que se abre bem entre o caminho do lar à sociedade, e vice-versa, a vida daquelas cinco pessoas se complica e lentamente se corrói. Os cinco pouco a pouco se afastam de seus irmãos, de seus pais, de seus amados, e principalmente da sociedade, num efeito muito paradoxal já que agora, mais do que nunca, milhares de pessoas passam bem na soleira da porta da família retirante.

A tese parece simples: a privacidade familiar que encarcerava aquele clube dos cinco em quatro paredes outrora repletas de companheirismo e intimidade, tende a se sufocar inevitavelmente e é imprescindível que aja o processo de libertação, onde a liberdade é plena, vasta e certa, e os filhos e os pais e certamente todo mundo estão permitidos a serem quem são. Onde há natureza, há amor. Onde há pessoas, há conspiração. O que mais importa em O Lar é mostrar lentamente o processo de colapso vivido pelos personagens, que se partem diante do horror e do caos da cidade grande. A família já não é mais composta de mãe, pai e filhos, mas também de milhares e milhares de desconhecidos que rudemente invadem o espaço, digamos, metafísico daquele pequeno lar francês.

O processo narrado pelo filme é conduzido de forma magistral, segura, jamais chata. Pouco a pouco pequenos pontos de conflito são adicionados à trama motriz para atiçar o interesse do espectador, desde o jogo de roquei até o enclausuramento claustrofóbico. Todo o processo é narrado vagarosamente, testemunhado por nós, que nos apaixonamos por tamanha utopia. Até que, desconfortavelmente, compreendemos que não são apenas os carros e os intrusos dentro deles que corrompem a família. Há outras máquinas mais intrusivas que parece causar mais estragos que os próprios veículos: são as câmeras que filmam os conflitos e nós, que com inveja e curiosidade penetramos no lar, danificando e trazendo uma mudança que talvez seja horrível demais para sequer ser mostrada.

4/5

Ficha técnica: O Lar (Home) – 2008, França. Dir.: Ursula Meier. Elenco: Isabelle Huppert, Olivier Gourmet, Adélaïde Leroux, Madeleine Budd, Kacey Mottet Klein.

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