por Bernardo Brum

Terror na Ópera é o tratado cinematográfico definitivo sobre o azar. Sobre as coisas dando errado, seja por predestinação ou por probabilidade. Pode ser a longo prazo, planejado, pode ser no impulso. Dario Argento sempre teve uma atração irresistível de filmar tipos errados e sentimentos que fogem à moral dita civilizada. Azar dos homens ou azar da divina providência, vai saber, o fato é que a violência, as obsessões e psicopatias estragaram qualquer idealismo e desejo altruísta.

Não à toa que o filme se passa durante a encenação da ópera Macbeth, famosa por trazer azar para quem a encena, que tem a sua cantora principal substituída por uma iniciante, vítima da obsessão de um assassino que, durante a maior parte do tempo, parece não ter muito a ver com a história (Dario Argento e suas constantes redefinições do whodunit). E não à toa que o filme começa com planos detalhe e supercloses em um corvo, pássaro identificado como mau agouro nas artes desde o poema homônimo ao pássaro de Edgar Allan Poe.

Como alguém com plena consciência do seu ofício e até onde pode chegar para manipular o espectador (mesmo que certas vezes os filmes sejam tocados num ritmo quase irracional de tão frenético), Argento aqui é genial ao se utilizar do conceito repetição, do leit-motiv normalmente utilizado em comédias, só que aqui de forma macabra, amarrando a protagonista a cada encontro, prendendo seus lábios com fita adesiva e colando agulhas embaixo dos seus olhos. A protagonista é nada mais que o próprio espectador, amordaçado à cadeira, estupefato em silêncio, que não se atreve a piscar enquanto o diretor, na figura do assassino, procura nos providenciar a morte perfeita, o prazer que nos é proibido, como uma obra de Shakespeare subvertida, e então vá embora para nos deixar atordoados.

É essa câmera constantentemente ativa e participativa do cinema de Dario Argento (não apenas pelo conceito de “subjetiva assassina”) que é tão eficiente; assim como De Palma, sua câmera despreza qualquer noção de olho  e passa por lugares impossíveis ou improváveis, dá atenção, através da decupagem, a detalhes que nenhum outro diretor daria na hora de filmar um assassinato ou filmar um clímax improvável (e olha que Terror na Ópera tem ao menos três deles) e usá-la, em conjunto com o roteiro, para jogar com nossas expectativas o tempo todo até desaguar em um final que contraria tudo que foi filmado até então de maneira irônica pela abordagem cafona ao se fazer e bela e poética, jogando a atenção mais uma vez em animais e mais uma vez no azar. Mais uma vez, sabe-se lá o que ele quis dizer – estamos todos sujeitos a isso, tanto às probabilidades ruins quanto aos impulsos primários? – mas sabemos que, independente disso, eis que ele nos sacaneou de novo.

5/5

Ficha técnica: Terror na Ópera (Opera) – Itália , 1987. Dir.: Dario Argento. Elenco: Urbano Barberini, Daria Nicolodi, Cristina Marsillach, Coralina Cataldi Tassoni, Antonella Vitale

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