– por Guilherme Bakunin

Mais poderosos e famosos do que nunca, agora com Oscar de Filme e Direção em mãos, Joel e Ethan Coen chegam para surpreender, para libertar o espectador da passividade do cinema. Os Coen convidam a quem assiste o seu novo trabalho a se levantar e fazer parte de sua obra, de seu experimento, porque Um Homem Sério é um filme experimental, não apenas porque Amy Landecker tem junto com Michael Stuhlbarg uma melhores viagens dos últimos anos, mas porque tal como Violência Gratuita, é o espectador quem pode completar o ciclo planejado pelos cineastas, entre a tragédia na tela e as risadas na platéia.

Stuhlbarg interpreta Larry Gopnik, professor de física que fundamenta toda a sua vida em equações colocadas num quadro negro colossal e procura seguir pela sua existência com a razão em mente. Na verdade, nada faz muito sentido na vida de Larry e ele não encontra muita razão capaz de resolver os seus problemas. Larry vai então ao rabino, primeiro o junior, depois o efetivo, e descobre que seus problemas são mera percepção, mera ótica. Mas que razão e quais palavras podem mesurar o sofrimento do homem? Qual é a lógica que define a falta de sentido e de objetivo, qual equação pode explicar o fato de que todas as coisas estão dando errado exatamente no mesmo momento na vida de Larry e se ele pensar bem, vai descobrir que na verdade tudo sempre deu errado, ele é quem não tinha a percepção disso. Bom, nenhuma equação pode fazer isso, e o quadro negro de Larry se expande e o engole, e ele se encontra perdido em meio ao espaço, negro, vazio.

Mas Rabi Shlomo Yitzhaki diz que o homem deve receber de bom grado tudo o que lhe é oferecido. Larry recebeu mil dólares como suborno de um estudante sul coreano, mas não aceita o dinheiro. O estudante então ameaça processá-lo por xenofobia, e Larry é obrigado a aceitar o mistério. E junto com o mistério, Larry aceita o dinheiro e recebe junto uma ligação de seu médico. É uma boa ou uma má notícia? A percepção do espectador vai ser obrigada a agir, tendo em mente todas as citações e todos os eventos ocorridos durante alguma parte da projeção. O que seria uma boa notícia para Larry naquele momento de sua vida? Uma fuga? Uma terapia de casal? Um caso extraconjugal? Filhos melhores (menos parecidos com ele mesmo)?

Enquanto Larry se entope de dúvidas e clama por ajuda, sua esposa quer o divórcio para viver com seu melhor amigo, seu filho está a duas semanas do Bar Mitzvah, sua filha rouba seu dinheiro para conseguir uma cirurgia no nariz e seu cunhado está vivendo no sofá de sua casa. Todos estão ao seu modo perdidos, sem a exata percepção de quão distantes estão de uma vida normal. Ou existe uma vida normal fora desta? Pergunto isso pois a noção de vida, morte e justiça em Um Homem Sério é amplamente questionada, uma jogada que os Coens utilizaram como forma de criticá-los, sempre com o humor, ou como forma de perguntar, afinal, qual é o sentido da vida. É mais provável que os diretores não cheguem a tanto porque parecem expressar o desejo de fazer graça em cima da preconceitos e convenções. Afinal, quando o maior rabino do mundo cita Jefferson Airplane você sabe que é a maioria que está com a razão, a rapaziada em Woodstock, perdida nas drogas mas aproveitando, à sua percepção, cada momento. E o mundo não parece fazer cumprir sua justiça. Danny passou pelo seu bar mitzvah completamente chapado, mas quem pode culpá-lo, quando nenhuma das pessoas ao seu redor parece entender o que se passa.

O certo mesmo é que a tempestade está à espreita e o mundo pode nunca mais ser o mesmo. Ou pode continuar sendo a mesma coisa na verdade. A bandeira pode voar do mastro, mas outra vai tomar o seu lugar, e depois outra e mais outra. Mas quando Larry encontra uma brecha, uma pequena fenda no seu espaço capaz de oferecer uma resposta, uma saída, aí o mundo dele mudou mesmo e nada mais importa e nada mais resta para ser dito. Nada mais mesmo.

5/5

Ficha técnica: Um Homem Sério (A Serious Man) – 2009, EUA. Dir.: Joel e Ethan Coen. Elenco: Michael Stuhlbarg, Richard Kind, Fred Melamed, Sari Lennick, Aaron Wolff, Jessica McManus, Jefferson Airplane, Peter Breitmayer, Brent Braunschweig, Amy Landecker.

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