por Bernardo Brum

Delphine é uma das personagens femininas mais neuróticas de Rohmer. Depois de um noivado mal sucedido e há dois anos  isolada do mundo, quando chega o período de férias de verão (meio do ano, na França),  vê os 30 dias passarem voando. Nesse meio tempo, viaja três vezes, chora várias vezes, foge das amigas e pretendentes, passa um monte de tempo sozinha – em hotéis, na praia litorânea, nas casas de campo.

Ao mesmo tempo, também está cismada com a cor verde, acha que a cor está a seguindo por todos os lugares, e inclusive, um especialista em astrologia disse para ela que este seria seu ano verde. A velha abordagem de religião, superstição e crendice do cineasta que apareceu de várias formas mais discretas e outras mais explícitas (como O Signo do Leão e aqui) culmina quando Delphine e o espectador ouvem falar do Raio Verde, romance escrito por Julio Verne sobre um fenômeno raro que ocorre durante o crepúsculo, quando a última luz solar que veremos será verde devido a um fenômeno de difração.

Delphine corre dos crepúsculos a todo momento, e sempre irrompe em lágrimas sempre que se aproximam dela só por aquele famoso interesse específico. As amigas dizem para ela relaxar, não ser exigente, aceitar o que vier, mas ela só quer aquele com quem se sentira bem.

Não à toa que, com um homem que só aparece nos últimos minutos, mas que é mais simpático, mais gentil e que ouve mais que todos os personagens que o diretor nos apresentou até então, que ela dê a permissão a ele de aceitar ver o seu crepúsculo e ver o Raio Verde junto; só com aquela pessoa específica (não o “príncipe dos sonhos”, ideal romântico, mas aquela que a faz sentir bem) que ela tem , enfim, coragem de enterrar o passado e contemplar o raio de luz. Verde, cor da esperança.

5/5

Ficha técnica: O Raio Verde (Le Rayon Vert) – França, 1986. Dir.: Eric Rohmer. Elenco: Marie Rivière, Amira Chemakhi, Sylvie Richez.

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