por Bernardo Brum

No seu desenrolar, Conto de Inverno parece ser assim como a estação que lhe dá nome: depois de ter uma relacionamento relâmpago que dá fruto a uma filha, em imagens quase sem diálogos que mostram pouco além de um casal se divertido em uma praia, um píer, transando no quarto e coisas assim, em cores fortes e captando atores com pouca roupa, que Felicie cinco anos depois revela ao espectador, em pleno inverno, que não perdeu o calor: ela é uma mulher volúvel, dividida entre dois homens reais, um cabelereiro de temperamento esquentado e um intelectual, e a lembrança de Charles, o pai de sua filha.

Até o clímax, o filme segue em um desespero contido: o da dúvida, da incerteza, do analfabetismo emocional. Por que, fora aquele que passou menos tempo com ela, nenhum homem parece ser adequado às seus desejos, suas inspirações, seus sonhos e projetos de vida? Esse clímax, pra lá de discreto e baseado em um mero exercício de plano e contraplano, que mostra apenas a protagonista e suas reações mínimas enquanto assiste a peça de Shakespeare homônima ao filme, afetará cada fotograma seguinte: o filme, então, muda definitivamente de tom.

Como em uma peça antiga, Rohmer se dá ao luxo da inverossimilhança, da improbabilidade, do quase impossível que acaba acontecendo, enfim, o deus ex machina. E Felicie tem oportunidade de finalmente de estar realmente feliz pelo menos uma vez. Pelo menos até mudar de idéia, pelo menos durante o verão.

5/5

Ficha técnica: Conto de Inverno (Conte D’hiver) – 1992, França. Dir.: Eric Rohmer. Elenco: Charlotte Véry, Frédéric van den Driessche, Michael Voletti, Hervé Furic, Ava Loraschi, Christiane Desbois.

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